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terça-feira, 25 de agosto de 2009

O REBELDE UEPA FASE II




O REBELDE - Inglês de Sousa


O REBELDE


CONTEXTO LITERÁRIO


A obra Contos amazônicos (1893), último livro de Inglês de Sousa, pertence ao Naturalismo. Para a compreensão do Naturalismo, torna-se necessário o entendimento do Realismo. Nesse sentido, Bella Josef escreve, n a apresentação do livro Inglês de Sousa:
“Não vemos como estabelecer nítida diferença entre realistas e naturalistas em nossa literatura”.
Já Pierre Martino afirmou que o Naturalismo “prolonga o Realismo para afirmá- lo e exagerá-lo”
O Realismo surge, como se sabe, em oposição ao idealismo e à subjetividade do movimento Romântico. Nessa perspectiva, Afrânio Coutinho escreve:

“Em literatura, Realismo opõe-se habitualmente
a idealismo (e do Romantismo), em virtude da
sua opção pela realidade tal como é e não como
deve ser. [...] O termo designa as obras literárias
modeladas em estreita imitação da vida real e
que retiram seus assuntos do mundo do real,
encarado de maneira objetiva, fotográfica,
documental, sem participação do subjetivismo do
artista.”


A consolidação do Realismo se dá, como acentua Coutinho em seu livro, com a publicação de Madame Bovary, de Gustave Flaubert, ocorrida em 1857, na França. Já o Naturalismo teve em Émile Zola o seu princ ipal representante, cuja série dos Rougon-Macquart se tornou um dos marcos dessa escola. Embora o Naturalismo possua características que o particularize, como o determinismo e o cientificismo, ele se relaciona inevitavelmente ao Realismo.

Quanto a isso, Coutinho escreve:

“Quanto ao Naturalismo, é um Realismo a que
se acrescentam certos elementos, que o
distinguem e tornam inconfundível sua
fisionomia em relação a ele. Não é apenas um
exagero ou uma simples forma reforçada do
Realismo, pois que o termo inclui escritores
que não se confundem com os realistas. É o
Realismo fortalecido por uma teoria peculiar,
de cunho científico, uma visão materialista do
homem, da vida e da sociedade.”


Pode-se dizer que o cientificismo e o determinismo se completam dentro do Naturalismo. As leis da física e da química juntamente com a influência do meio são responsáveis agora pelo que o homem — personagem — é ou se tornará. Diante do fatalismo da vida, o personagem age então como uma mera vítima; espécie de produto a ser moldado pelo meio, pelas condições já existentes.

Pode-se dizer assim que o escritor naturalista observa o homem por meio do método científico, de forma impessoal e objetiva, como se a vida e as coisas que o cercam fossem o seu objeto de estudo. Não importa, nesse sentido cientificista, a opinião sobre os fatos, mas os fatos em si mesmos, analisados com distanciamento. Fala-se então numa ânsia pela verdade que, segundo Josué Montelo, conduz a literatura sensivelmente para o campo da ciência.






O REBELDE

Contexto histórico

Apesar de os Contos amazônicos terem sido escritos no final do século XIX, a obra tem como pano de fundo um tempo histórico que atravessa todo o século, referenciando momentos importantes de seu processo sócio-político.

AS REVOLTAS POPULARES NO BRASIL DO SÉC.XIX

A revolução pernambucana de 1817 é então o primeiro detalhe histórico que nos interessa mais de perto, na medida em que Paulo da Rocha, importante personagem de “O rebelde”, é um veterano da revolta,soldado fiel de Domingos José Martins (figura real, comerciante e um dos líderes do levante),e que, por este passado, apesar da vida pacífica que levava anos depois, já na década de 1830, era respeitado e temido pelos habitantes de Vila Bela, às voltas com outro movimento revolucionário, a Cabanagem, no Pará.
Antes desta revolta, porém, importantes acontecimentos — que, inclusive, ajudam a explicá- la — continuam a modificar
a vida brasileira. Com o regresso de Dom João VI a Portugal em abril de 1821, seu filho, que se tornará Dom Pedro I, permanece como príncipe regente, proclama a Independência em 7 de setembro de 1822 e assume o comando monárquico do novo país, pondo fim, no Brasil, ao período colonial. Dá-se início ao Primeiro Reinado, que vai de 1822 até 1831, quando Dom Pedro I, por questões que não convém aqui prolongarmos, se vê forçado a abdicar ao cargo de imperador e segue para a Inglaterra, na tentativa de recuperar outro trono, o português, ocupado por seu irmão Miguel desde a morte de Dom João VI, em 1826.
Com apenas cinco anos, Dom Pedro II é naturalmente impossibilitado de assumir oposto do pai e começa no Brasil, então, em1831, o período conhecido como a Regência, por ter como governantes várias figuras políticas se alternando até a maioridade antecipada do menino imperador, em 1840. É durante a conturbada década de 1830, marcada por incertezas quanto à organização política e por disputas entre pequenas elites pelos controles regionais, que acontecem várias revoltas provinciais no Brasil, como a Sabinada, na Bahia, a Balaiada, no Maranhão, a Farroupilha, no Rio Grande do Sul e, antes de todas, a Guerra dos Cabanos, em Pernambuco, e a Cabanagem, no Pará, que nos interessa mais de perto e não deve ser confundida com
essa revolta pernambucana ocorrida na mesma época.
Apesar de serem movimentos distintos, sem uma relação direta, acontecidos em lugares e, inclusive, em anos diferentes (a Guerra dos Cabanos, de 1832-35; a Cabanagem, de 1835-40), algumas características os aproximam e remontam à
revolução pernambucana de 1817. Com esta última, a Cabanagem se parece no que tange às insatisfações que motivam a revolta: primeiro, o descontentamento com o isolamento do Pará em relação ao resto do Brasil, levando os rebeldes a conquistar Belém e proclamar a independência do Pará; segundo, o patriotismo que motiva o ataque indiscriminado aos comerciantes portugueses ali imigrados, vistos como usurpadores de uma terra que não lhes pertencia. Agora, o que a Cabanagem tem a ver com a Guerra dos Cabanos, e que diferencia ambas da revolução de 1817, está no fato de serem aquelas duas revoltas compostas por rebeldes com uma articulação ainda menor entre si: se a revolução de 1817 ainda contava com militares, juízes e sacerdotes, tanto a Guerra dos Cabanos quanto a Cabanagem é feita, quase totalmente, de índios, mestiços, trabalhadores escravos ou dependentes e pequenos proprietários. Mesmo tendo como um dos lemas a liberdade e de existirem escravos entre os rebeldes, o movimento era de tal maneira desarticulado e contraditório que chegou a reprimir, no Pará, um levante de escravos, além de também não tocar efetivamente na questão da abolição, mantendo-a.
A Cabanagem, assim, não chega a concretizar uma nova organização política e a revolta acaba ficando conhecida pelos constantes massacres praticados em qualquer propriedade que julgasse pertencente a estrangeiros, de um modo geral (mas sobretudo portugueses), ou a maçons, que, para os rebeldes, eram contrários à fé católica, esta também uma de suas bandeiras. É justamente este contexto, marcado pelo medo relativo à chegada dos cabanos e à destruição que a eles se associava, a despeito de seus ideais libertários, que podemos perceber fortemente tanto em “A quadrilha de Jacó Patacho” quanto em “O rebelde”, nos momentos finais de Os contos amazônicos, aos quais voltaremos mais detidamente adiante.
Como nota, vale ressaltar que a Cabanagem deixa números desastrosos para o Pará: 30 mil mortos, entre legalistas e rebeldes (estes vencidos por aqueles), dizimando cerca de 20% da população e destruindo Belém social e economicamente.














RESUMO DA OBRA

O REBELDE

Reaparece em “O rebelde” o problema da data apontado no conto Quadrilha de Jacó Patacho: a história contada por Luís sobre sua amizade com Paulo da Rocha e a experiência vivida pelos dois relacionada a Cabanagem data também de 1832. Assim como em “A quadrilha de Jacó Patacho”, a despeito daquelas várias questões que esse problema temporal poderia suscitar, a revolta dos cabanos paraenses aparece como pano de fundo histórico de toda a narrativa, mas, ao contrário do conto anterior, é descrita com mais detalhes, chegando o narrador, inclusive, a fazer referência ao final da batalha. detalhamento das histórias de seus personagens principais,

“O rebelde” é a narrativa da história de vida de Luís (contada por ele mesmo), seu contato com Paulo da Rocha, um velho veterano da Revolução Pernambucana de 1817, habitante agora de Vila Bela, e a experiência da fuga da Cabanagem vivida pelos dois, juntamente com Padre João da Costa, Júlia, filha de Paulo, e d. Mariquinhas, mãe de Luís, após a morte de Guilherme da Silveira, pai deste último. O tempo dos acontecimentos narrados pertence à década de 1830, como já comentamos, mas o tempo da realização do relato data de 40 anos depois, como o próprio narrador afirma no início do conto. Vejamos, então, o que o enredo, linearmente construído, trata em cada uma de suas partes.

Nas duas primeiras, temos a descrição da vida modesta de Júlia e Paulo da Rocha e o afeto que o jovem Luís nutria pelo velho pernambucano, desprezado e temido por toda Vila Bela. O narrador se diz fascinado por tudo aquilo que, de um modo geral, os outros repudiam e, por isso, o mistério e a repulsa que a cidade projetava sobre Paulo da Rocha fazem com que o menino goste cada vez mais daquele veterano, cuja casa passa a freqüentar, escondido de seus pais, com muita regularidade.

Além de Luís, padre João parece ser o único habitante daquele lugar que não temia Paulo, dando a este o cargo de sacristão, o que afasta a população de suas missas. Este medo das pessoas de Vila Bela por Paulo da Rocha tinha sua origem no fato de ser o velho um ex-combatente da revolta de Pernambuco.

Cria-se, então, um mito em torno do personagem, visto por alguns como um homem cruel e por outros como assombração.

Na terceira parte do conto surge então a referência a Cabanagem. O medo projetado sobre Paulo se desloca para os rebeldes que se aproximavam de Óbidos, gerando pânico entre os habitantes, que passam a desconfiar uns dos outros. Paulo da Rocha permanece da mesma maneira em seu trabalho cotidiano, até receber a visita de Padre João, que, temeroso pela proximidade dos cabanos, pede ao velho que interceda pela cidade e faça frente aos rebeldes que se aproximam, tendo em vista ser ele um veterano de revoltas anteriores e, por isso, o único capaz de conquistar a confiança dos cabanos. Paulo da Rocha, retomando seu passado rebelde, faz um discurso relativamente em defesa da Cabanagem, o que espanta Padre João e Luís, que assistia ao diálogo: ao mesmo tempo em que reconhece e desaprova as atrocidades dos rebeldes, Paulo compreende a miséria que os levou a isso e ainda afirma não haver motivo para defender aqueles que a vida inteira o desprezaram.

Na quarta parte, Luís narra o estremecimento de sua relação com o velho veterano, após aquela conversa, e diz se sentir envergonhado, à época, pela simpatia que ainda nutria por Paulo, amizade que entrava em conflito com a educação que recebera até o momento. Luís fica sabendo então da jura de morte que Matias Paxiúba, líder de alguns cabanos, fizera ao seu pai, Guilherme da Silveira — juiz e português de nascimento, a quem chamavam, por isso, de marinheiro —por ter este prendido e chicoteado outrora aquele rebelde. O clima fica cada vez mais tenso à medida que as notícias sobre a proximidade dos cabanos vão chegando a Vila Bela.

Temos assim, na quinta parte, o episódio da invasão da casa de Luís e do assassinato de Guilherme da Silveira. Antes de morrer, o português pede desculpas a Paulo da Rocha e o implora para que salve seu filho. O pedido é aceito com uma jura de fidelidade à segurança daquela criança. Conseguem fugir da guerra Padre João, Luís, d. Mariquinhas e Júlia, todos conduzidos por Paulo da Rocha.

A sexta parte traz, então, o relato da primeira paragem daquela fuga: o grupo liderado por Paulo se abriga no sítio de uma conhecida deste último, uma velha chamada Andresa. Neste momento, uma desconfiança começa a se criar em torno da honestidade do pernambucano, cuja fala demonstra muita simpatia pela causa cabana, gerando estranhamento da parte daqueles que acabaram de lhe sofrer as conseqüências.

Na sétima parte, um grupo de cabanos, a mando de Matias Paxiúba, chega ao sítio da velha Andresa. Os refugiados se escondem, temerosos, sobretudo, d. Mariquinhas e Luís, de estarem sendo procurados pelo bando que queria completar a vingança iniciada com a morte de Guilherme da Silveira. O narrador, do alto de uma mangueira, assiste a um
espetáculo impressionante: Paulo da Rocha enfrentando, através da argumentação,sozinho, aquele grupo de aproximadamente cem pessoas. Trava-se então um diálogo tenso: o veterano de Pernambuco questiona insistente e agressivamente a imprudência de invadirem um sítio de um brasileiro como eles.
Luís, que assistia a tudo, se surpreende ao ver aquele grupo famoso pelas barbaridades que cometia amuar diante de Paulo da Rocha, que, após permitir que os cabanos se abriguem moderadamente no sítio, continua o diálogo, questionando a integridade e coerência daquele movimento, ao compara-lo com a revolução da qual participou:

“— Fui rebelde (...), mas a minha causa era grande e nobre. Nós, em Pernambuco, nos rebelamos por uma idéia grandiosa, idéia que ficou afogada em sangue, mas não morreu, há de surgir mais tarde ou mais cedo. (...) Não há de tardar o dia da redenção dos cativos. Mas os cabanos matam e roubam pelo simples prazer do crime, ou antes, porque invejam a prosperidade dos brancos.”

E, após uma breve intervenção de um cabano, continua com o mesmo entusiasmo:

“Que vieram vocês buscar aqui? Não sou tão bom brasileiro como o melhor cabano? E que valentia é essa vir assim tanta gente atacar o sítio de uma pobre velha, viúva de um brasileiro que os marinheiros do Pará mataram de desgostos?”

Note o leitor que a crítica que Paulo da Rocha faz a Cabanagem não tem a ver com a ideologia do movimento em si, da qual compartilha, e sim com as atitudes dos cabanos. É preciso considerar também que a maneira como o pernambucano interroga os rebeldes está ligada a uma estratégia de defesa: Paulo jurou a Guilherme da Silveira garantir a segurança de sua família; assim, para afastar os cabanos de uma devassa sobre o sítio e evitar que eles encontrem os refugiados, o velho pernambucano usa da
argumentação para lhes impor respeito e limites.
Após as perguntas de Paulo da Rocha, um dos rebeldes, aparentemente o líder daquela expedição, explica os motivos da visita: estavam ali a mando de Matias Paxiúba, que queria conversar com o velho rebelde. Este então manda avisar ao líder cabano que em breve irá ao seu encontro. Antes de se retirarem, um dos tapuios avista Luís, que, por ter a pele morena, passa por protegido de Paulo, que o identifica como sendo seu afilhado.

Na oitava parte, o grupo refugiado no sítio da velha Andresa pensa em uma maneira de garantir a própria segurança no período em que Paulo da Rocha se ausentasse para ir ao encontro de Matias Paxíuba. Decidem, assim, por se esconder em uma casa no meio do mato, construída pelo velho veterano para se abrigar nos tempos em que ficava à beira da lagoa pescando. Despedem-se de Andresa e seguem em direção ao esconderijo, que inicialmente agrada a todos; Paulo e Júlia seguem ao encontro dos cabanos. Passados quinze dias, já exaustos e cada vez mais temerosos, Luís, d. Mariquinhas e Padre João são acordados por Paulo da Rocha, que vinha só e triste. Perguntado sobre Júlia, o pernambucano responde que a filha ficara como refém de Paxiúba, para obrigar o velho a retornar ao seu encontro, já que este pedira àquele para se ausentar temporariamente a fim de tratar de negócios urgentes em Serpa, quando na verdade queria era levar os refugiados àquela vila, onde poderiam alcançar a Barra facilmente e sair do território dominado pelos cabanos, o que de fato acontece.
Neste momento o narrador conta o que se passara durante o encontro de Paxiúba e Paulo. Para isso ele recorre a uma testemunha ocular que, anos depois do episódio, lhe narra o acontecido. O líder dos cabanos já sabia que o velho pernambucano salvara Luís e sua mãe e exige de Paulo que os entregue para que a vingança seja concluída. Um intenso diálogo é travado entre os dois e mestre Paulo se nega a entregar o esconderijo ou ir buscar o filho de Guilherme da Silveira, dizendo ter jurado pela vida de sua filha a segurança do menino. Após insultos e ameaças de Paxiúba, o velho pernambucano desafia o cabano a uma contenda física, a que Matias recusa, recuando-se, para dizer que esperava mestre Paulo trazer Luís enquanto fazia Júlia de refém. É neste momento que o rebelde de 1817 se retira e segue para salvar os refugiados e conduzi-los a Serpa. Depois disso, Paulo da Rocha volta ao encontro de Paxiúba e Luís nunca mais teve notícia nem do pai nem da filha, por mais que tivesse pesquisado sobre isso. Sobre Padre João da Costa, o narrador comenta que o período de tensão e privações experimentado durante o exílio na lagoa minaram a saúde do clérigo, acabando por matá-lo tempos depois. Luís termina a oitava parte contando que, anos mais tarde, terminada a Cabanagem, segue para Olinda, a fim de cursar Direito, e passa um bom período sem voltar ao Pará.

Na nona e última parte de “O rebelde”, o narrador, sendo já juiz municipal e delegado de polícia de Óbidos, no Pará, narra o episódio em que conversa com o tenente-coronel responsável pela fortaleza transformada provisoriamente em cadeia de justiça. No diálogo, Luís descobre que aquele oficial fora quem liderou o grupo que deteve o bando de Matias Paxiúba, o que atiça enormemente sua curiosidade. O tenente conta então que daquele grupo de cabanos, entre os que fugiram e os que foram mortos, conseguiram fazer um único prisioneiro: um velho pernambucano que saía de uma cabana carregando sua filha (aparentemente morta; o tenente não o diz abertamente) e jurara não pertencer ao bando de Matias nem ser um dos rebeldes, mas que fora aprisionado assim mesmo e teve sua vida poupada. O tenente afirma ainda que o velho até então estava preso ali, como seu troféu pela vitória da batalha. Luís se emociona louc amente e por fim se encontra com Paulo da Rocha, que a princípio não o reconhece, mas que depois, após o narrador se apresentar, chora silenciosamente abraçado ao seu pescoço. O conto termina com a breve referência aos esforços de Luís para o perdão, da parte da justiça, de Paulo da Rocha, o que, após um ano, consegue alcançar. Dois dias depois da liberdade, o velho pernambucano falece na casa do narrador, em seus braços.













CONSIDERAÇÕES FINAIS SOBRE A OBRA







É interessante observar a maneira como a Cabanagem é atualizada neste conto de Inglês de Sousa: apesar da descrição da violência dos cabanos e de o relato ser feito por uma de suas vítimas, como acontece indiretamente em “A quadrilha de Jacó Patacho”, a figura de Paulo da Rocha, sem dúvida a personagem mais importante e interessante do conto, acaba por legitimar, em alguma medida, as causas daquela revolta popular, mesmo que termine sendo também vitimado por ela. O rebelde que fora no passado e que sustenta suas posições ideológicas até o momento em que mantém contato com o narrador, alcança a redenção da parte daqueles que a princípio seriam seus contrários em dois momentos: primeiro, na fala de Guilherme da Silveira, português residente em Vila Bela, que compartilhava do preconceito da cidade em relação ao pernambucano, mas que, à beira da morte, lhe pede perdão e lhe implora para que garanta a segurança de seu filho Luís; e segundo, na relação de Paulo com o próprio Luís, que desconfia da lealdade do velho durante os tempos do exílio, em função das posições ideológicas deste último em relação aos cabanos, mas que descobre, anos mais tarde, ter sido ele seu salvador, às custas, inclusive, do sacrifício dessas mesmas posições ideológicas que motivavam a desconfiança.
Determinado pelas circunstâncias (a amizade com o menino Luís e a jura de salvá- lo a qualquer preço), Paulo da Rocha acaba trilhando um caminho para o qual não se programara e que ia na contramão de sua ideologia.

NO MOINHO - Eça de Queirós UEPA FASE II



NO MOINHO

video produzido por alunos do PROF. GIL MATTOS - II ANO DO COLEGIO DESTAK - CAPANEMA




NO MOINHO
EÇA DE QUEIROS
Paixão e realismo se misturam e enriquecem os contos de Eça de Queiroz.
O autor desenha tristezas, amores frustrados, dramas morais de todo tipo.
No conto “No Moinho” o problema é relativo à construção da protagonista.
A falta de coerência marca a trajetória que vai da “senhora modelo”, que vive para cuidar do marido inválido e dos filhos doentes, à mulher promíscua, que pensa em apressar a morte do marido e deixa os filhos sujos e sem comida até tarde.
Toda esta transformação de caráter provocada pelo simples beijo de um primo e dos valores que ele repassa.
Apesar da variedade temática, pode-se perceber no conto de Eça uma grande preocupação com as dores humanas.
Seus personagens são em geral tristes, alguns céticos, outros ingênuos, mas sempre atormentados. A postura de crítica , ironia e pessimismo definem o valor social e humano.
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PONTOS IMPORTANTES NO TEXTO

MARIA DA PIEDADE

É-nos apresentada a história de D. Maria da Piedade, uma senhora considerada por toda a vila onde vive como “uma senhora modelo” e de uma beleza fora do normal. O texto a descreve com valores de idealização , colocando-a dentro dos preceitos românticos de beleza.

“ A vila tinha quase orgulho na sua beleza delicada e tocante; era uma loura, de perfil fino, a pele ebúrnea e os olhos escuros de um tom de violeta, a que as pestanas longas escureciam mais o brilho sombrio e doce.”

O CASAMENTO POR INTERESSE

É casada com João Coutinho, que é rico, mas muito doente e os seus 3 filhos também são doentes. É a típica mulher, que casou não por amor, mas para fugir ao mau ambiente que havia em casa dos pais.

“Mesmo em solteira, em casa dos pais, a sua existência fora triste. A mãe era uma criatura desagradável e azeda; o pai, que se empenhara pelas tavernas e pelas batotas, já velho, sempre bêbedo, os dias que aparecia em casa passava-os à lareira, num silêncio sombrio, cachimbando e escarrando para as cinzas.”

“E quando João Coutinho pediu Maria em casamento, apesar de doente já, ela aceitou, sem hesitação, quase com reconhecimento, para salvar o casebre da penhora, não ouvir mais os gritos da mãe, que a faziam tremer, rezar, em cima no seu quarto, onde a chuva entrava pelo telhado. Não amava o marido...”

A DONA DE CASA PERFEITA , MULHER PERFEITA E CARIDOSA . UMA VERDADEIRA “ MARIA DA PIEDADE “

É uma ótima dona de casa, a autêntica “fada do lar”, toma conta da casa, trata do marido e dos filhos como uma enfermeira particular.

“Toda a sua ambição era ver o seu pequeno mundo bem tratado e bem acarinhado. Nunca tivera desde casada uma curiosidade, um desejo, um capricho: nada a interessava na terra senão as horas dos remédios e o sono dos seus doentes. Todo o esforço lhe era fácil quando era para os contentar: apesar de fraca, passeava horas trazendo ao colo o pequerrucho, que era o mais impertinente, com as feridas que faziam dos seus pobres beicinhos uma crosta escura: durante as insônias do marido não dormia também, sentada ao pé da cama, conversando, lendo-lhe as Vidas dos Santos, porque o pobre entrevado ia caindo em devoção”

A CHEGADA DE ADRIÃO – DO ROMÂNTICO ADRIÃO

No entanto, tudo se modifica, com a visita de Adrião (primo do marido), que é um escritor famoso e mora em Lisboa.
“Adrião era um homem célebre, e o marido da Maria da Piedade tinha naquele parente um orgulho enfático. Assinara mesmo um jornal de Lisboa, só para ver o seu nome nas locais e na crítica. Adrião era um romancista: e o seu último livro, Madalena, um estudo de mulher trabalhado a grande estilo, duma análise delicada e sutil, consagrara-o como um mestre. A sua fama, que chegara até à vila, num vago de legenda, apresentava-o como uma personalidade interessante, um herói de Lisboa, amado das fidalgas, impetuoso e brilhante, destinado a uma alta situação no Estado. Mas realmente na vila era sobretudo notável por ser primo do João Coutinho. “


O INÍCIO DA RELAÇÃO COM ADRIÃO

O primo Adrião resolve vender uma propriedade e João Coutinho, sugere-lhe que seja Maria da Piedade a tratar do assunto.

“Foi por isso, com grande alegria, que ouviu João Coutinho declarar-lhe que a mulher era uma administradora de primeira ordem, e hábil nestas questões como um antigo rábula!...
- Ela vai contigo ver a fazenda, fala com o Teles, e arranja-te isso tudo... E na questão de preço, deixa-a a ela!...
- Mas que superioridade, prima! - exclamou Adrião maravilhado. - Um anjo que entende de cifras!
Pela primeira vez na sua existência Maria da Piedade corou com a palavra dum homem. De resto prontificou-se logo a ser a procuradora do primo... “


AS CONVERSAS E A AFINIDADE DE MARIA DA PIEDADE COM ADRIÃO

“Ela falou-lhe já com menos reserva quando voltaram. Havia nas maneiras dele, dum respeito tocante, uma atração que a seu pesar a levava a revelar-se, a dar-lhe a sua confiança: nunca falara tanto a ninguém: a ninguém jamais deixara ver tanto da melancolia oculta que errava constantemente na sua alma. De resto as suas queixas eram sobre a mesma dor - a tristeza do seu interior, as doenças, tantos cuidados graves... E vinha-lhe por ele uma simpatia, como um indefinido desejo de o ter sempre presente, desde que ele se tornava assim depositário das suas tristezas. “
Após a venda da tal fazenda, vão visitar um velho moinho da terra. Aí, Adrião, resolve cortejar a esposa do primo, e acaba por lhe dar um beijo.
“ O silêncio dos campos em redor isolava-os - e, insensivelmente, ele começou a falar-lhe baixo. Era ainda a mesma compaixão pela melancolia da sua existência naquela triste vila, pelo seu destino de enfermeira... Ela escutava-o de olhos baixos, pasmada de se achar ali tão só com aquele homem tão robusto, toda receosa e achando um sabor delicioso ao seu receio... Houve um momento em que ele falou do encanto de ficar ali para sempre na vila.
- Ficar aqui? Para quê? - perguntou ela, sorrindo.
- Para quê? para isto, para estar sempre ao pé de si...

(...)
Ela corou outra vez do fervor da sua voz, e recuou como se ele fosse já arrebatá-la para o moinho. Mas Adrião agora, inflamado àquela idéia, pintava-lhe na sua palavra colorida toda uma vida romanesca, de uma felicidade idílica, naquele esconderijo de verdura: de manhã, a pé cedo, para o trabalho; depois o jantar na relva à beira da água; e à noite as boas palestras ali sentados, à claridade das estrelas ou sob a sombra cálida dos céus negros de verão...
E de repente, sem que ela resistisse, prendeu-a nos braços, e beijou-a sobre os lábios, dum só beijo profundo e interminável. Ela tinha ficado contra o seu peito, branca, como morta: e duas lágrimas corriam-lhe ao comprido da face. Era assim tão dolorosa e fraca, que ele soltou-a; ela ergueu-se, apanhou o guarda-solinho e ficou diante dele, com o beicinho a tremer...”
Contudo, Adrião sente-se perturbado e após o ocorrido e a concretização do negócio , acaba por voltar para Lisboa.
“Amava-o. Desde os primeiros dias, a sua figura resoluta e forte, os seus olhos luzidios, toda a virilidade da sua pessoa, se lhe tinham apossado da imaginação. O que a encantava nele não era o seu talento, nem a sua celebridade em Lisboa, nem as mulheres que o tinham amado: isso para ela aparecia-lhe vago e pouco compreensível: o que a fascinava era aquela seriedade, aquele ar honesto e são, aquela robustez de vida, aquela voz tão grave e tão rica; e antevia, para além da sua existência ligada a um inválido, outras existências possíveis, em que se não vê sempre diante dos olhos uma face fraca e moribunda, em que as noites se não passam a esperar as horas dos remédios. Era como uma rajada de ar impregnado de todas as forças vivas da natureza que atravessava, sùbitamente, a sua alcova abafada: e ela respirava-a deliciosamente... Depois, tinha ouvido aquelas conversas em que ele se mostrava tão bom, tão sério, tão delicado: e à força do seu corpo, que admirava, juntava-se agora um coração terno, duma ternura varonil e forte, para a cativar... Esse amor latente invadiu-a, apoderou-se dela uma noite que lhe apareceu esta idéia, esta visão: - Se ele fosse meu marido! Toda ela estremeceu, apertou desesperadamente os braços contra o peito, como confundindo-se com a sua imagem evocada, prendendo-se a ela, refugiando-se na sua força... Depois ele deu-lhe aquele beijo no moinho.
E partira! “


AS MUDANÇAS EM MARIA DA PIEDADE
Mas o tal beijo, modifica Maria da Piedade, que se sente apaixonada por Adrião, e após a sua partida, entrega-se à leitura de romances, primeiro, os do primo e depois de outros autores, acabando-se por transformar num “romanticismo mórbido”.
“Então começou para Maria da Piedade uma existência de abandonada. Tudo de repente em volta dela - a doença do marido, achaques dos filhos, tristezas do seu dia, a sua costura - lhe pareceu lúgubre. Os seus deveres, agora que não punha neles toda a sua alma, eram-lhe pesados como fardos injustos. A sua vida representava-se-lhe como desgraça excepcional: não se revoltava ainda: mas tinha desses abatimentos, dessas súbitas fadigas de todo o seu ser, em que caía sobre a cadeira, com os braços pendentes, murmurando: - Quando se acabará isto? “


A INFLUÊNCIA DE ADRIÃO NA VIDA DE MARIA DA PIEDADE


“Leu todos os seus livros, sobretudo aquela Madalena que também amara, e morrera dum abandono. Essas leituras calmavam-na, davam-lhe como uma vaga satisfação ao desejo. Chorando as dores das heroínas de romance, parecia sentir alívio às suas. “
‘A realidade tornava-se-lhe odiosa, sobretudo sob aquele aspecto da sua casa, onde encontrava sempre agarrado às saias um ser enfermo. Vieram as primeiras revoltas. Tornou-se impaciente e áspera. Não suportava ser arrancada aos episódios sentimentais do seu livro, para ir ajudar a voltar o marido e sentir-lhe o hálito mau. Veio-lhe o nojo das garrafadas, dos emplastros, das feridas dos pequenos a lavar. Começou a ler versos. Passava horas só, num mutismo, à janela, tendo sob o seu olhar de virgem loura toda a rebelião duma apaixonada. Acreditava nos amantes que escalam os balcões, entre o canto dos rouxinóis: e queria ser amada assim, possuída num mistério de noite romântica...”
“O seu amor desprendeu-se pouco a pouco da imagem de Adrião e alargou-se, estendeu-se a um ser vago que era feito de tudo o que a encantara nos heróis de novela; era um ente meio príncipe e meio facínora, que tinha, sobretudo, a força. Porque era isto que admirava, que queria, por que ansiava nas noites cálidas em que não podia dormir - dois braços fortes como aço, que a apertassem num abraço mortal, dois lábios de fogo que, num beijo, lhe chupassem a alma. Estava uma histérica. “
“Às vezes, ao pé do leito do marido, vendo diante de si aquele corpo de tísico, numa imobilidade de entrevado, vinha-lhe um ódio torpe, um desejo de lhe apressar a morte... ‘

DE MULHER MODELO PARA UMA MULHER ADÚLTERA


“A Santa tornava-se Vênus.
E o romanticismo mórbido tinha penetrado naquele ser, e desmoralizara-o tão profundamente, que chegou ao momento em que bastaria que um homem lhe tocasse, para ela lhe cair nos braços: - e foi o que sucedeu enfim, com o primeiro que a namorou, daí a dois anos. Era o praticante da botica. “
No fim, Maria da Piedade acaba por se tornar uma mulher adúltera, com um “praticante da botica”, deixando de cuidar da casa, do marido nem dos filhos.
“Por causa dele escandalizou toda a vila. E agora, deixa a casa numa desordem, os filhos sujos e ramelosos, em farrapos, sem comer até altas horas, o marido a gemer abandonado na sua alcova, toda a trapagem dos emplastros por cima das cadeiras, tudo num desamparo torpe - para andar atrás do homem, um maganão odioso e sebento, de cara balofa e gordalhufa, luneta preta com grossa fita passada atrás da orelha e bonezinho de seda posto à catita. Vem de noite às entrevistas de chinelo de ourelo: cheira a suor: e pede-lhe dinheiro emprestado para sustentar uma Joana, criatura obesa, a quem chamam na vila a bola de unto.”


CONCLUSAO

Maria da Piedade retrata, de certa forma, as mulheres de antigamente. Uma grande maioria casava para poder sair da miséria da casa dos pais, para tentar uma nova vida, acabando por se ver envolvidas numa vida de trabalho e pouca felicidade. É curioso ver como Maria da Piedade tratava do marido e dos filhos sem que isso aparentemente a perturbasse muito, pois encarava-o como uma obrigação, algo que lhe cabia fazer e como algo normal para sua existência de mulher.

O aparecimento de Adrião serviu de pretexto a que Maria da Piedade se apercebesse que não tinha de viver toda a vida sem ser feliz. Ela absorve o discurso dos romances de Adrião . Capta a idéia do amor , da fantasia , do sonho , do perfil forte das mulheres dos romances da época e dá um novo caminho ao seu cotidiano entediante e infeliz.

Acredito que não se tenha apaixonado verdadeiramente por ele, mas sim pelo que ele lhe mostrou, ou seja, uma possibilidade de se sentir feliz. Porém, estes valores românticos vão estabelecer um desvio de seus valores rotineiros mas que a mantinham dentro da conveniência moral.
A liberdade do sonho romântico desvirtua o caminho moral de MARIA DA PIEDADE.
Daí que, no final do conto. Ela acaba por se envolver com um homem que, aparentemente, não valia grande coisa.
Fez pelo impulso do sentimento , da necessidade de se sentir feliz , após se aperceber que tinha direito a ser feliz.
Maria da Piedade acreditou ingenuamente que o poderia ser com qualquer homem que conhecesse (tirando o marido, claro). E não importando de que jeito e tão pouco com o mundo e convenções que ela seguia. Procurou fazer o seu mundo de felicidade instantânea e assim , da mesma forma , rapidamente fluiu de mulher modelo para mulher adúltera, achando-se feliz e ironicamente se envolvendo com alguém que só estava com ela por interesse ( “e pede-lhe dinheiro emprestado para sustentar uma Joana, criatura obesa, a quem chamam na vila a bola de unto.”).
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