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quinta-feira, 10 de dezembro de 2009

NATAL - MIGUEL TORGA - UEPA III FASE

Novos Contos da Montanha , de Miguel Torga
Entre o subjetivismo da geração anterior à sua e o neo-realismo da geração que surgia, Miguel Torga tornou-se uma voz singular na literatura portuguesa do século XX. Apresentando um Portugal agrário, em imagens reais, dramáticas e ao mesmo tempo líricas, os contos de Miguel Torga revelam a dura humanidade de um povo.

Publicado pela primeira vez em 1944, Novos Contos da Montanha, oferece um conjunto de vinte e duas narrativas breves,
Nesta obra, como na maioria da escrita da sua autoria, o autor ficcionaliza, num registro muito peculiar (marcado pelo recurso a um tom coloquial, a uma significativa adjetivação e a diversas metáforas muito expressivas) uma realidade à qual se encontra umbilicalmente ligado, imprimindo à ação e às personagens que habitam a história um caráter profundamente humano, dramático e, de certo modo até, agônico ou desesperado



NATAL
MIGUEL TORGA


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De sacola e bordão, o velho Garrinchas fazia os possíveis por se aproximar da terra. A necessidade levara-o longe de mais. Pedir é um triste ofício, e pedir em Lourosa, pior. Ninguém dá nada. Tenha paciência, Deus o favoreça, hoje não pode ser e beba um desgraçado água dos ribeiros e coma pedras! Por isso, que remédio senão alargar os horizontes, e estender a mão à caridade de gente desconhecida, que ao menos se envergonhasse de negar uma côdea a um homem a meio do padre nosso.
Sim, rezava quando batia a qualquer porta. Gostavam... Lá se tinha fé na oração, isso era
outra conversa. As boas acções é que nos salvam. Não se entra no céu com ladainhas, tirassem daí o sentido. A coisa fia mais fino!

Mas, enfim...
Setenta e cinco anos., parecendo que não, é um grande carrego.
. E, como anoitecia cedo, não havia outro remédio senão ir agora a mata cavalos, a correr contra o tempo e contra a idade, com o coração a refilar. Aflito, batia-lhe na taipa do peito, a pedir misericórdia. Tivesse paciência. O remédio era andar para diante. E o pior de tudo é que começava a nevar!

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Análise do Prof. Gil Mattos

Reflexões críticas

 Natal.
Qual o sentido do Natal? ( Família , União , Fraternidade , Solidariedade ). Intrigante é perceber que um senhor de idade ( 75 anos ) , pede esmola em pleno Natal e em uma cidade considerada muito religiosa ( Lourosa ). E a reação das pessoas é um reflexo do homem moderno , cercado pelo individualismo , falta de solidariedade e por falsos valores.

 Depois temos que reconhecer a aceitação (consciente e crítica) da condição do Garrinchas: aceitação da condição de pedinte e de carente, mas não vencido da vida; que o faz ser perseverante e ir mais longe pedir esmola

 Depois analisemos a caminhada, o esforço necessário e a superação das suas limitações físicas. Aqui já está em jogo preservar a identidade, mesmo ao nível da sobrevivência. E é neste nível que se situa a decisão de pernoitar na ermida da Senhora dos Prazeres
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Apressou mais o passo, fez ouvidos de mercador à fadiga, e foi rompendo a chuva de pétalas. Rico panorama! Com patorras de elefante e branco como um moleiro, ao cabo de meia hora de caminho chegou ao adro da ermida. À volta não se enxergava um palmo sequer de chão descoberto. Caiados, os penedos lembravam penitentes.
Não havia que ver: nem pensar noutro pouso. E dar graças! Entrou no alpendre, encostou o pau à parede, arreou o alforge, sacudiuse,e só então reparou que a porta da capela estava apenas encostada. Ou fora esquecimento ou alguma alma pecadora forçara a fechadura.Vá lá! Do mal o menos. Em caso de necessidade, podia entrar e abrigar-se
dentro. Assunto a resolver na ocasião devida... Para já, a fogueira que ia fazer tinha de ser cá fora. O diabo era arranjar lenha.

Saiu, apanhou um braçado de urgueiras, voltou, e tentou acendê-las. Mas estavam verdes e húmidas, e o lume, depois dum clarão animador, apagou-se.
Recomeçou três vezes, e três vezes o mesmo insucesso. Mau! Gastar os fósforos todos, é que não. Num começo de angústia, porque o ar da montanha tolhia e começava a escurecer, lembrou-se de ir à sacristia ver se encontrava um bocado de papel. Descobriu, realmente, um jornal a forrar um gavetão, e já mais sossegado, e também agradecido ao Céu por aquela ajuda, olhou o altar. Quase invisível na penumbra, com o divino filho ao colo, a Mãe de Deus parecia sorrir-lhe.

Boas festas! Desejou-lhe então, a sorrir também. Contente daquela palavra que lhe saíra da boca sem saber como, voltou-se
E deu com o andor da procissão arrumado a um canto. E teve outra ideia. Era um abuso, evidentemente, mas paciência. Lá morrer de frio, isso vírgula! Ia escavacar o arcanho. Olarila! Na altura da romaria que arranjassem um novo. Daí a pouco, envolvido pela negrura da noite, o coberto, não desfazendo, desafiava qualquer lareira afortunada. A madeira seca do palanquim ardia que regalava; só de se cheirar o naco de presunto que recebera em Carvas crescia água na boca; que mais faltava ?


Enxuto e quente, o Garrinchas dispôs-se então a cear. Tirou a navalha do bolso, cortou um pedaço de broa e uma fatia de febra, e sentou-se.Mas antes da primeira bocada a alma deu-lhe um rebate e, por descargo de consciência,
ergueu-se e chegou-se à entrada da capela. O clarão do lume batia em cheio na talha dourada e enchia depois a casa toda.
É servida? A Santa pareceu sorrir-lhe outra vez, e o menino também.
E o Garrinchas., diante daquele acolhimento cada vez mais cordial, não esteve com meias medidas: entrou, dirigiu-se
ao altar, pegou na e trouxe-a para junto da fogueira.

Consoamos aqui os três disse, com a pureza e a ironia dum patriarca. A senhora faz de quem é; o pequeno a mesma coisa; e eu, embora indigno, faço de S. José.



Análise do Prof. Gil Mattos
 O mesmo se passa com a decisão de fazer uma fogueira à custa do papel da sacristia ou até do andor da procissão.
 Na condição de pedinte garantiu a comida e na consciência das circunstâncias garantiu o agasalho.

ATITUDES SIMBÓLICAS MARCANTES

 E, então, o Garrinchas realiza a primeira relação: cumprimenta a Mãe de Deus, respondendo a uma solicitação que teve possibilidade de receber porque se começou a poder descentrar de si
 O segundo comportamento, mais admirável, é composto por dois momentos: o primeiro é a oferta dos bens; e o segundo é a oferta de si próprio. Isto é, primeiro oferece os bens materiais pão e presunto e depois apresenta-se para complemento do quadro familiar.
 Mas ainda há uma outra dimensão implícita de realização: o Garrinchas transcende-se e, "embora indigno", é elevado à categoria de S. José.
 Em plena noite de Natal , o sentido de Família , Solidariedade , Fraternidade e União foram estabelecidas através de Garrinchas que tornou-se diferentemente dos homens que sempre negaram a ele ajuda, um homem que doou de si , do pouco de si ( materialmente ) e faz o rico momento da família ao lado da imagem da Mãe de Deus

11 comentários:

  1. Uffa.. Obrigada Porfessor! Muito boa sua análise.

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  2. explicação bem sucinta...vai me ajudar muito na hora da minha prova..obrigado

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  3. muito bom professor...obrigada.

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  4. Adorei sua analise,voce apresentou significativamente todos os detalhes principais da obra.obrigado professor...

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  5. Muiito Obrigada Professor!!!!
    Será de grande valia a sua análise!

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  6. Muuuuito Obrigada!! Perfeito!!

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  7. Muito bom esse resumo, li a crônica na integra mais não tem a mesma facilidade de compreensão como no seu resumo!
    Valeu pela ajuda!

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  8. VALEU PROFESSOR EU NÃO TAVA ENTENDENDO NADA!!!!!!!!!!

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  9. muito bom seus comntários..agora minha sideias ficaram mais amadurecidas..parabens

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  10. gostei seu comentario é esclarecedor....

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