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sábado, 2 de outubro de 2010

UFRA 2011 - AMOR DE PERDIÇÃO -


AMOR DE PERDIÇÃO
de Camilo Castelo Branco


           1– BIOGRAFIA    
É tão comum ouvirmos que a vida imita a arte, ou que a arte imita a vida que tal clichê serviu-nos como luva no caso de Camilo Castelo Branco. Sem dúvida, sua vida serviu como modelo para algumas de suas personagens românticas, seja pelo grau de passionalisma, seja pelo caráter amoroso e aventureiro.
O autor nasceu em Lisboa (1825). Perdeu a mãe aos dois anos, aos dez ficou órfão de pai, e foi levado para casa de uma tia. Na pré-adolescência já estava aos cuidados da irmã, quando recebeu formação religiosa e intelectual. Aos dezesseis anos, Camilo casou-se com Joaquina Pereira, uma aldeã de quinze anos. Logo abandonou esposa e filha, indo para o Porto, onde se matriculou na Escola Médica e na Academia Politécnica. Mais tarde abandonaria ambos as cursos. Foi no Porto que começou sua aventureira vida amorosa e seu drama pessoal.
Em 1845, simulou um duelo para escandalizar a bur­guesia; envolveu-se na guerrilha; foi preso com Patrícia Emília, acusado de adultério; envolveu-se com mulheres da soci­edade; iniciou seus amores com Ana Plácido; teve relações com uma freira; foi ferido em duelo por um marido traído; terminando preso por adultério por causa de Ana Plácido.
Durante o período de sua prisão no Porto, Camilo escreveu quatro novelas, entre elas Amor de Perdição, seis dos Doze Casamentos Felizes, entre outras textos. Não se discute o caráter quase industrial de sua produção literária, que se conta em centenas de obras, entre poesia, crítica literária, contos, crônicas, romances e novelas, destacando-se, evi­dentemente, nestas últimas.
Em 1863, transferiu-se para São Miguel de Seide, para uma quinta de propriedade de Ana Plácido, com quem viveu até seus últimos dias. Nesse tempo já estava doente. Seu estado de saúde agravou-se em 1867, mas não impediu sua produção literária. Os fatos tristes pareciam não lhe dar descanso: seu filho com Ana Plácido enlouqueceu; seu melhor amigo, Vieira de Castro, rnatou-se depois de assassinar a mulher e ser exilado; o filho do primeiro casamento da mulher morreu; seu filho mais novo foi expulso de casa; dificuldades financeiras obrigaram-no a vender sua biblioteca; morreram a neta e a nora. Como se a vida sofrida não bastasse, Camilo estava quase cego. Camilo matou-se com um tiro no ouvido direito. quando o médico que foi consultá-lo deixou seus aposentos, depois de diagnosticar a cegueira irreversível.

2 – BIBLIOGRAFIA

Como é impossível citar as centenas de obras do Au­tor, transcreveremos apenas algumas:
Novelas: Anátema (1851); O Livro Negro do Padre Dinis (1855); Onde está a Felicidade? (1856); Coração, Cabeça e Estômago (1861); Amor de Perdição (1862); Amor de Salvação (1864); A Mulher Fatal (1870); Novelas do Minho (1877); Eusébio Macabro (1879), etc.
Poesias: Os Pundonores Desagravados (1845): Inspirações (1851); Um Livro (1854); Nostalgias (1888); Nas Trevas (1890).

3 – INTRODUÇÃO

As novelas camilianas pautam-se pelo seu caráter passional ou satírico, ou seja, pela exaltação do sentimento de paixão que parece dominar suas personagens ou pelo caráter cômico e humorístico dada pelo autor às mesmas. Amor de Perdição é uma novela passional, marcada pelo sentimento de um amor trágico e proibido. Tal passionalismo resulta do rompimento da razão pelo enredar-se de um amor impossível, levando o par amoroso a beirar a loucura. O distanciamento cada vez maior da esperança de concretização do amor e, por conseqüência, dos amantes, toma a morte o único resultado esperado.
A presente obra assume caráter dramático e trágico, uma vez que atinge profundamente os protagonistas em seus sentimentos e culmina pela morte dos mesmos. O amor impossível parece criar força e engrandecer-se através das dificuldades enfrentadas, eternizando-se. Esse amor fatal e obsessivo é a mola do enredo e dá origem ao sofrimento amoroso que motiva o conflito entre o ideal e o real. Esse idealismo sentimental é o eixo narrativo das novelas passionais de Ca­milo Castelo Branco.
Em Amor de Perdição temos, sem dúvida, uma recriação lusitana de Romeu e Julieta, de Shakespeare. Como na tragédia clássica, o casal vê-se impedido de realizar seu amor por questões de família e termina lutando até a morte para atingir seu ideal. A não aceitação desse relacionamento amoroso por parte dos familiares de ambos os jovens parece con­duzir ao final trágico, única saída para o impasse, cumprindo-se assim o desígnio do Simão e Teresa.
"Amor do Perdição, uma grandeza trágica de paixões e situações; uma narração densa e rápida das ações decisi­vas; caracteres psicológicos secundários inteiramente subor­dinados as necessidades de dignificação do conflito central, mas por vezes realistas e enérgicos, sobretudo quando extraí­dos do meio popular (João da Cruz, Mariana, por exemplo); diálogo geralmente eivado de retórica sentimental, mas por vezes de grande nobreza trágica nas personagens principais, e extraordinariamente vivo, colorido, incisivo nos tipos popula­res"[1]
Vale ressaltar que o relacionamento entre Simão e Te­resa dá-se através de cartas uma vez que só tiveram três meses para o namoro, a distância, antes de separarem-se. Essas cartas servem de elo poderoso na tensão amorosa, en­volvendo terceiros, tais como a mendiga João da Cruz e Mariana. Esta, apesar de amar Simão, presta-se ao papel de intermediária para não ver o rapaz sofrer, tamanho é seu desprendimento e sua sinceridade amorosa. Mariana contenta-se apenas com a presença de Simão.
Mais do que através da morte de Simão e Teresa, a morte de Mariana parece colocar fim à situação, resolvendo-se o conflito amoroso.
Indiscutivelmente, Amor de Perdição pode ser consi­derada a mais importante novela passional de Camilo Castelo Branco, não apenas como marco de sua carreira ou transposição literária de um momento doloroso do escritor, mas por representar o ponto mais alto das novelas românticas lusita­nas.

 4 - RESUMO DO ENREDO

INTRODUÇÃO
O narrador conta como descobriu a história de Simão Antônio Botelho ao folhear livros de antigos assentamentos no cartório das cadeias da Relação do Porto. O narrador, sobrinho do degredado Simão, como descobriremos mais tarde,  aproveita para conversar com o leitor[2], tentando emocioná-lo: "O leitor decerto se compungia; e a leitora, se lhe dissessem em menos de uma linha a história daqueles dezoito anos, choraria!
Amou, perdeu-se e morreu amando".

Capítulo I
O primeira capítulo começa com a história dos pais de Simão. Domingos Botelho acaba como corregedor de Viseu (1801), depois do arremetidas amorosas e poéticas em sua vida de estudante. Sempre teve intenções fidalgas, tendo mandado inclusive esculpir a pedra de armas de sua família, não incluindo as da mulher. Daí o brasão não ser exibido em sua casa.
Manuel, irmão de Simão, sai de Coimbra, porque não agüenta mais o comportamento do irmão. Simão tem um gênio terrível, metido em brigas, arruaças. O corregedor admira, entretanto, a bravura do filho, dizendo à mãe que é a “figura e o gênio de seu bisavô Paulo Botelho Correia...”.
Simão volta a Viseu com seus exames feitos e aprovados. O pai admira o talento do filho, desculpando-se pelas extravagâncias. Simão termina arrumando confusão no final das férias, ao quebrar vasilhas do parapeito do chafariz por causa de uma briga entre os donos das vasilhas e um criado de sua casa. Feriu vários homens, que reclamaram ao magis­trado. Domingos Botelho briga com o filho, que foge para Coimbra com o dinheiro da mãe.

Capítulo II
Simão mete-se em confusão em Coimbra e acaba sendo levado para o cárcere acadêmico, donde só saiu seis meses depois, graças aos amigos do pai e aos parentes da mãe. Acaba voltando para Viseu, já que havia perdido o ano letivo. O pai ameaça expulsá-lo, mas a mãe intercede em favor do filho.
Simão sofre profunda transformação em três meses. Está mais caseiro, recolhido ao quarto, com ar pensativo. A mudança é causada pelo amor. Simão está apaixonado por Teresa do Albuquerque, sua vizinha. Os dois namoravam pela janela de seus quartos.
O pai de Teresa, Tadeu de Albuquerque, é inimigo de Domingos Botelho por causa de uns litígios desfavoráveis nas sentenças dadas pelo magistrado. A inimizade entre as duas famílias, entretanto, não impede a força desse amor nascido entre os dois jovens, que só faziam promessas.
Na véspera da partida do irmão para Coimbra, Teresa arrancada da janela. Simão sente o  sangue ferver na ca­beça, fica vigiando a janela, mas acaba esfriando o sangue com o amanhecer.
Teresa escreve dizendo que o pai vai encerrá-la num convento por causa dele. Ela pede que parta para Coimbra, que enviará para lá as cartas.
Simão modifica seu comportamento na academia. Aplica-se nos estudos. Por causa disso, Manuel Botelho, ir­mão de Simão, acaba voltando para Coimbra. Manuel acaba fugindo com uma açoriana casada para a Espanha.

Capítulo III
Tadeu Albuquerque e Domingos Botelho aumentam seu rancor, tornando impossível qualquer reconciliação entre as duas famílias. Teresa conversa através da janela com Rita, irmã predileta de Simão, mas acaba sendo descoberta por Domingos Botelho, que faz um grande escândalo. Tadeu conversa com a filha e acredita nela, desculpando-a.
Tadeu sonha ver a filha casada com Baltasar Coutinho, seu sobrinho e igualmente nobre. Tadeu acaba chaman­do o sobrinho a sua presença. Teresa, entretanto recusa-se ao casamento. Baltasar diminui os méritos do rival diante da amada, que tenta defendê-lo. Baltasar procura o tio e conta o essencial de sua conversa com a prima. Tadeu de Albuquer­que comunica à filha sua intenção de vê-la casada com Balta­sar e termina perguntando se ela prefere entrar num convento.
“Teresa respondeu, chorando, que entraria num con­vento, se essa era a vontade do seu pai; porém, que se não privasse ele de a ter em sua companhia, nem a privasse a ela dos seus afetos por medo de que sua filha praticasse alguma ação indigna, ou lhe desobedecesse no que era virtude obe­decer.
Prometeu-lhe julgar-se morta para todos os homens, menos para seu pai. Tadeu ouviu-a, e não lhe replicou”.

Capítulo IV
"O coração de Teresa estava mentindo. Vão lá pedir sinceridade ao coração".
Comentário: O narrador analisa o comportamento de Teresa, percebendo-lhe uma certa perspicácia na promessa para evi­tar o claustro do convento.

Tadeu de Albuquerque surpreende a filha num domin­go, dizendo que a moça dará a mão a Baltasar Coutinho. O pai justifica que sua violência é amor, que outro pai a teria submetido a maus tratos. Segue-se um diálogo entre pai e filha, no qual Teresa pede ao pai que a mate, em lugar de forçá-la ao casamento: Tadeu Coutinho renega a filha e manda que vá para o quarto.
Teresa escreve a Simão narrando o acontecido e remata a carta dizendo que suspeita “algum novo plano de violência". Simão parte para Viseu com a ajuda de um arreeiro. No dia seguinte, é hospedado em casa do ferreiro João da Cruz. Envia carta a Teresa que confirma um encontro naquela mesma noite, quando comemoravam os seus anos. Encont­rar-se-íam às onze horas, quando ela abriria a porta do quin­tal para o rapaz. As onze horas em ponto já está Simão en­costado à porta do quintal. O arreeiro espera pelo rapaz a distância.

Capítulo V
Teresa consegue escapar da festa fingindo procurar por Baltasar Coutinho, que havia saído do local. Simão en­contra-se com Baltasar Coutinho e fazem-se desafios. O ra­paz ameaça o fidalgo, que acaba saindo. Simão e Teresa mal têm tempo para se falarem. A moça pede ao rapaz que volte no outro dia a mesma hora. Simão volta para a casa do ferrei­ro.
O casal corresponde-se. O rapaz conta à moça o inci­dente da noite anterior numa carta. Mas, receando assustar Teresa e privar-se do encontro, acaba escrevendo nova carta demonstrando não ter receio do perigo ou de manchar a re­putação da moça. "Quis parecer a Simão Botelho que este era o digno porte de um amante corajoso”.
Simão conversa com a filha do ferrador, Mariana, que sabe tudo sobre seu discreto caso de amor com Teresa. João da Cruz chega e conta que deve um favor ao pai do moço. Domingos Botelho salvara o ferrador da forca, quando este matara um sujeito cujo burro ferira uma égua que  fora levada para ferrar. João feriu o animal, tendo o dona reagido com um tiro de bacamarte, João acabara matando o homem depois de ser ferido. João conta que foi criado em casa do Baltasar Coutinho, que lhe emprestou o dinheiro para montar o esta­belecimento. Há seis meses, Baltasar Coutinho mandara chamar o ferrador e oferecera trinta moedas de ouro para matar Simão. João da Cruz recusou a proposta. O pai de Simão foi informado do ocorrido pelo ferreiro. João da Cruz aconselha o rapaz a não ir ao encontro da moça, mas Simão não aceita o conselho.

Capítulo VI
Baltasar Coutinho e dois empregados seus preparam­-se para a chegada de Simão. O fidalgo dá as instruções para emboscarem o moço, evitando suspeitas. Os dois avistam um vulto e percebem que é João da Cruz. Simão chegava com o arreeiro. João da Cruz impede sua passagem para que não seja emboscado. Avisa que há dois homens.
Simão encontra-se rapidamente com Teresa. João da Cruz vai ao seu encontro e pede que parta sem olhar para trás.
Simão é emboscado pelos empregados do fidalgo e é ferido. João da Cruz acerta um dos homens, o outro escapa. Acabam conseguindo encontrar o que escapara. Simão pede a João que não mate o rapaz. João pede que siga na frente. João termina matando o outro empregado. Ao ficar sabendo, "Simão teve um instante de horror do homicida, e de arrepen­dimento de se ter ligado com tal homem".

Capítulo VII
O ferimento de Simão é mais complicado do que pa­recia. O rapaz manda o arrieiro espalhar a notícia de que está no Porto. Teresa escreve a Simão pedindo que volte para Coimbra. Simão responde, tranqüilizando o ânimo de Teresa, falando de passagem no ferimento.
Teresa é, colocada pelo pai no convento de Viseu, uma vez que os preparativos para sua ida para o convento de Monchique demorariam. No convento, percebe o fingimento das freiras,  tendência às intrigas e o hábito da bebida entre as superioras. Teresa escreve a Simão, colocando-o a par de seu estado e pedindo que não receie por ela.

Capítulo VIII
Mariana sente-se mal quando João faz curativo em Simão, mesmo estando acostumada a curar o pai. João recomenda o rapaz  à moça, pedindo a esta que lhe dê caldos e trate da ferida.
Simão e João da Cruz conversam sabre Mariana. Com a saída de João, Mariana e Simão conversam sobre a situação do rapaz e sobre o ferreiro. João da Cruz volta com uma carta de Teresa. Simão responde a carta, enquanto Mariana vai ver o caldo para o rapaz.
João desconfia que Simão está sem dinheiro e pede a Mariana que pense numa maneira do rapaz aceitar o dinheiro que tem da venda de seus bezerros. Simão pensa exatamente na sua situação financeira. Dera à mendiga que trouxera a carta de Teresa, sua última moeda. Mariana consegue plane­jar uma manobra de fazer o dinheiro do pai chegar as mãos do rapaz: diz que a mãe do moço sabe do seu paradeiro.

Capítulo IX
João da Cruz, que demorou muito para chegar, conta ao moço que sua mãe chamara-o. Entrega ao rapaz seu di­nheiro. Simão aceita o dinheiro e tenta pagar por sua estadia, mas João da Cruz recusa.
Tadeu Albuquerque consegue que a filha seja aceita em Monchique e manda avisá-la que partirão na madrugada do dia seguinte. Teresa consegue fazer um bilhete chegar até Simão. Mariana oferece-se para procurar Teresa, levando re­cado de Simão.

Capítulo X
Mariana consegue encontrar-se com Teresa, que manda dizer a Simão que não vá.
Mariana transmite a Simão o recado da moça. Simão decide vê-la antes de partir para Coimbra. Simão descreve uma carta dramática a Teresa, mas não chega a terminá-la. Simão conta a Mariana suas intenções. João é informado pela filha dos planos do rapaz e tenta demovê-lo. Simão recusa mesmo a companhia do ferreiro. João despede-se do rapaz. Todos despedem-se.
Simão parte à noite. "Em uma hora, e estava Simão defronte do convento..." As quatro e meia chegam os parentes de Teresa. Baltasar diz que um ano de convento “é um ótimo vomitório do coração”. Teresa apresenta-se ao pai, que procura conversar com a filha.
Teresa vê Simão. Insultado por Baltasar Coutinho, Simão passa também a insultá-lo. Os dois discutem. Simão passa a chamá-lo de covarde. Os dois começam uma briga, mas Simão dispara a arma, atingindo Baltasar na fronte. João da Cruz chega e manda o rapaz fugir na égua que está ao cabo da rua. Simão recusa e manda João fugir. O rapaz en­trega-se ao meirinho geral, vizinho do mosteiro. Tadeu Albu­querque manda que levem a filha ao Porto.

Capítulo XI
Domingos Botelho é informado do crime do filho e re­cusa ajuda ao rapaz. Manda que o meirinho peça ao juiz de fora que cumpra as leis, exigindo que seja rigoroso. O corregedor é procurada pelo juiz de fora para informar que Simão está em sua casa:
“ - Ainda não: está em minha casa, venho saber se vossa senhoria determina que lhe seja preparada com decência a prisão.
- Eu não determino nada. Faça de conta que o preso Simão não tem aqui parente algum.
- Mas, senhor doutor corregedor - disse o juiz de fora com tristeza e compunção –vossa senhoria é pai.
- Sou um magistrado".
Simão não se importa com seu destino. Está irredutível em sua atitude de entrega à lei. Recebe carta da mãe, que também lhe manda o almoço. Pela carta, Simão descobre que o dinheiro recebido era de João da Cruz. Simão chora e recusa o almoço.
Mariana procura Simão e corre até ele de braços abertos e com o rosto banhado em lágrimas. Mariana não deixou que o pai viesse. Simão pede a Mariana uma branca, uma cadeira, um tinteiro e papel. Mariana diz que não trouxe porque o pai pediu que olhasse primeiro o que a família mandara. Simão diz que não tem família e dá o dinheiro a Mariana. Mariana recusa o dinheiro.

Capítulo XII
Domingos Botelho sai de Viseu com a família.
O narrador fala de uma carta recebida de uma senhora da família do preso. Simão é julgado e condenado à forca. Mariana é levada aos prantos. Simão fica imperturbável. De­pois recusa apelar da sentença, pois está “contente de sua sorte”.
Simão sofre por Teresa e Mariana: "Uma morrendo amada; outra, agonizando, sem ter ouvido a palavra ‘amor’ dos lábios que escassamente balbuciavam frias palavras de gratidão”. Simão chora e pede a João que cuide da filha. Mariana comportava-se como uma demente, o que obriga seu pai a amarrá-la e levá-la para casa.

Capítulo XIII
Teresa está no convento de Monchique, aos cuidados da criada que a acompanhou. Foi recebida ao chegar pela tia, com recomendações de “clausura rigorosa e absoluta privação de meios de escrever a quem quer que fosse”.
Teresa fica sabendo que Simão foi condenado à morte. Graças à ajuda de uma freira, comovida pela sorte dos dois moribundos, consegue escrever uma carta a Simão. Antes da última palavra, a moça tem uma convulsão. Teresa cai doente e parece chegar ao fim. A tia abadessa escreve a Tadeu para que venha despedir-se do anjo. Teresa consegue receber carta de Simão, que pede que ela não morra ainda, pois tem esperança de absolvição no Porto, ou de comutação da sentença.

Capítulo XIV
Tadeu Albuquerque vai buscar a filha, mas é impedido pela prima, por causa do estado da moça. Tadeu quer levá-la embora por causa da proximidade de Simão, que fora transferido para a cadeia da relação, no Porto. Ante a recusa da saí­da da filha pela superiora, Tadeu enche-se de raiva. De todas as maneiras legais procura tirar a filha do convento, mas não consegue. Chega a apelar para velhos conhecidos, que lhe recusam o pedido. Um antigo amigo desembargador chega mesmo, depois do sentir-se ofendido, a dizer que Simão não irá à forca.

Capítulo XV
João da Cruz visita Simão e dá notícias de Mariana, que está curada. Simão envia carta a Teresa por intermédio do ferreiro. A carta é entregue, o que enche Simão de alegria. João dá notícia de que Mariana está no Porto e que virá visitar o fidalgo no dia seguinte. Simão pede que não a deixe ficar no Porto, sozinha. João da Cruz desfaz as preocupações do rapaz, mostrando que a moça sabe sair-se bem sozinha. Simão não quer que João fique só, sem a companhia da filha. João afirma que consegue resolver seus problemas através da cu­nhada velha.
“ - Pudesse eu ser o marido de sua filha, meu nobre amigo!
- Qual marido!... – disse o ferrador com os olhos vidrados das primeiras lágrimas que Simão lhe vira. – Eu nunca me lembrei disso, nem ela!... Eu seu que sou um ferrador, e ela sabe que pode ser sua criada, e mais nada, senhor Simão...” (pp. 94/95).

Capítulo XVI
Manuel Botelho, irmão do condenado, volta para Por­tugal com mulher com quem fugira. Manuel visita Simão e fica conhecendo Mariana. Manuel é obrigado a apresentar a mul­her como uma de suas irmãs para o desembargador Mourão e para o corregedor do crime. Domingos Botelho descobre a coisa toda e manda trazer à sua presença a açoriana casada com quem o filho vive. Conversa com a moça e acaba arrumando uma maneira de mandá-la de volta para a casa da mãe nos Açores.

Capítulo XVII
João da Cruz é morto pelo filho do homem que matara. Mariana é informada por Josefa sobre a morte do pai. Coube a Simão dar a notícia ao ler a carta. A moça vai ao desespero, mas é lembrada por Simão de que ela é o seu amparo.

Capítulo XVIII
Mariana vai a Viseu recolher a herança paterna. Junta o dinheiro que está escondido sob a laje vende a propriedade, deixando a casa para a tia. Volta para o Porto, guardando o dinheiro com Simão, com medo de que seja roubado na casinha em que vive. Simão fica preocupada com o destino da moça. Perguntada pelo rapaz sobre o que faria se ele fosse degredado, responde que irá com ele, se ele quiser sua com­panhia. 0s dois conversam. Simão tenta persuadi-la, mas não consegue.
Domingos Botelho acaba lutando pelo filho contra a ira de Tadeu de Albuquerque, que chega a oferecer a casa para que mantivessem a sentença de morte para Simão. O Príncipe Regente concede ao condenado a graça de converter a forca em prisão na Vila Real, mas Simão recusa e afirma que protestará perante os poderes judiciários contra um favor que não implorara e que considere mais atroz que a morte.
Domingos Botelho, informado da rejeição do filho, deixa-o a sua vontade. Simão tem seu nome inscrito no catálogo dos degredados para a Índia.

Capítulo XIX
O narrador justifica a decisão de Simão, mostrando que o rapaz não suportaria trocar a forca pelos ferros da prisão.
­Teresa pede a Simão que aceite os dez anos de ca­deia, mas nada muda a decisão do moço. Simão escreve a Teresa para que não espere nada e que se salve. Teresa res­ponde que morrerá.
“Morrerei, Simão, morrerei. Perdoa tu ao meu destino... Perdi-te... Bem sabes que sorte eu queria dar-te... e morro, porque não posso, nem poderei jamais resgatar-te. Se podes, vive; não te peço que morras, Simão; quero que vivas para me chorares. Consolar-te-á o meu espírito... Estou tranqüila... Vejo a aurora da paz... Adeus até o Céu, Simão”. (p. 108)
Seguem-se os preparativos para a partida de Simão para a Índia. Mariana consegue convencer o magistrado de ir junto como criada para o degredado, com passagem paga pelo amo.
Simão está infeliz: “E Teresa - bradava ele, surgindo subitamente do seu espasmo. - E aquela infeliz menina que eu matei. Não hei de vê-la mais, nunca mais. Ninguém me levará ao degredo a notícia da sua morte! E, quando eu a chamar para que me veja morrer digno dela, quem te dirá que eu morri, ó mártir?!” (p.109)

Capítulo XX
Simão Botelho embarca no cais da Ribeira. Não vai amarrado aos companheiros de degredo. É recomendado ao comandante. O dinheiro mandado pela mãe é distribuído, por ordem de Simão, entre os degredados.
Teresa tem sua doença agravada. À noite daquele dia, pede os sacramentos e comunga. Envia a Simão as cartas recebidas do rapaz. Pede a Constança para acompanhá-la ao mirante. Simão enxerga do navio a amada, que via os conde­nados serem embarcados. Simão pergunta a Mariana se é Teresa. Do alto do mirante, um lenço branco é agitado e, re­pentinamente, pára. Teresa é carregada.
Simão fica sabendo que Teresa morreu no mirante e vê que tudo está acabado. Conversa com o capitão sobre o futuro de Mariana.

Conclusão
Simão relê as cartas que escreveram. Arruma tudo num maço. Acaba ficando doente de febre maligna, pede a Mariana que jogue as cartas no mar, se morrer. Mariana afirma que também morrerá.
A febre de Simão agrava-se. Após o quarto dia, Simão morre.
“Foi o cadáver envolto num  lençol, e transportado ao convés.
Mariana seguiu-o”. (p 117)
Quando a corpo de Simão é jogado ao mar, Mariana atira-se junto com o amado, sem que a pudessem. “Viram-na, um momento, bracejar, não para resistir à morte, mas para abraçar-se ao cadáver de Simão, que uma onda lhe atirou aos braços”. (p. 118)

6 – ESTRUTURA DA OBRA

A presente obra é' dividida em vinte capítulos, uma in­trodução e uma conclusão. Na introdução o pseudo-autor fala aos leitores que, ao folhear livros antigos, se deparou com a história de Simão Botelho e de seu degredo. Na conclusão, desenlace da obra, termina afirmando-se filho de Manuel Botelho, portanto sobrinho do Simão Botelho. Os vinte capítulos, e a maior parte da conclusão, narram a história trágica do protagonista Simão Botelho.

a)     AÇÃO: A ação da presente obra é lenta até a metade, nar­ra o conhecimento e a namoro de Simão e Teresa. Da metade para a frente, ou seja, a partir do capitulo X, tem-se a clímax com a morte de Baltasar Coutinho e a desencadear rápido dos fatos conseqüentes. O enredo é orgânico e sucessivo, pois a ação transcorre em ordem cronológica, seguindo-se um fato ao outro. A presença de agressões (fugas da narrativa linear) não chega a interferir profundamente na ação.
b)     TEMPO: O tempo da obra é cronológico, ocorrendo a ação narrativa nos primeiros anos do século XIX e culminando no ano do 1807, quando Simão é degredado para Índia e morre alguns dias depois. O tempo da narração, entretanto, é poste­rior ao da ação, uma vez que o narrador conta a história de­pois de ter lido o auto de degredo do protagonista muitos anos depois.
c)     ESPAÇO: A primeira parte da novela focaliza Viseu (do ano do namoro de Simão e Teresa até a morte de Baltasar Coutinho); a segunda no Porto (da morte de Baltasar Coutinho e o desenlace com a morte de Teresa, Simão e Mariana)
d)     FOCO NARRATIVO: A narrativa é feita em terceira pes­soa, sendo o narrador onisciente através da leitura de livros antigos e histórias que se contavam da época. A posição desse narrador é bastante interessante, uma vez que acaba colo­cando-se como parente do protagonista Simão Botelho, um sobrinho, mas que não se deixa envolver diretamente pelos sofrimentos do tio. O narrador faz julgamentos acerca das  personagens e de suas atitudes, interferindo com o leitor.
e)     PERSONAGENS:
1)     Simão Botelho: é um dos protagonistas da obra. A prin­cípio é visto como um jovem agressivo e pouco moderado em suas atitudes. Não era um bom estudante e vivia metido com pessoas de má índole. Na visão do narrador, suas atitudes mudam depois que se apaixona por  Teresa de Albuquerque, tornando-se um bom estudante, mais moderado e abandonando as más companhias.  Segundo o mesmo narrador “estatura ordinária, cara redonda, olhos castanhos, cabelo preto...”
2)     Teresa de Albuquerque: É também protagonista. É uma jovem fisicamente frágil e sensível. Sua pureza pa­rece envolver os sentimentos de Simão. Possui caráter trágico. É firme e decidida, não se entregando aos de­sejos do pai de vê-la casada com o primo Baltasar Coutinho, preferindo ser levada para o convento. Se a coragem de Simão está na ousadia e na agressividade, a de Teresa está na convicção de seus sentimentos e na aceitação passiva, ou quase, de seus desígnios.
3)     Mariana: É personagem importante na elaboração da trama, uma vez que participa de momentos importantes do enredo. Ama Simão, ainda que este não perceba a princípio os seus sentimentos. Seu amor é submisso e contenta-se apenas de estar perto de seu amado. Podemos dizer que seu amor é de servidão, pois aceita servir a Simão sem esperar nada em troca. Conhece a superioridade social de seu amado e reconhece a im­possibilidade da realização plena de seu amor. Repre­senta a moça simples do povo.
4)     João da Cruz: É um simples ferreiro, tipo simples e po­pular. Apesar de ter seu passado marcado por um crime de morte, é um homem bom e de caráter amistoso. Serve na obra de protetor de Simão. É pai de Mariana. Termina sendo morto pelo filho do homem que assassi­nou.
5)     Domingos Botelho: É pai de Simão. Homem radical e preso a valores mesquinhos que parecem prevalecer sobre as relações afetivas com os filhos. É corregedor de Viseu. Por questões de origem fidalga e de litígios, termina tornando-se inimigo de Tadeu de Albuquerque.
6)     Tadeu de Albuquerque: É pai de Teresa. Homem de origem fidalga, não aceita o vizinho, Domingos Botelho. Sua intransigência com relação a única filha mostra bem seu caráter. Seu irracionalismo leva-o a sacrificar a filha, deixando-se levar apenas pelo temor à socieda­de.
7)     Baltasar Coutinho: É um fidalgo, sobrinho de Tadeu de Albuquerque. Indivíduo sem escrúpulos, que faz qual­quer coisa para atingir seus objetivos, mesmo que isto conduza a morte de alguém. Deseja a prima, Teresa, em casamento, mesmo que isto o obrigue a matar Si­mão. Termina sendo morto por Simão. Podemos consi­derá-lo como antagonista.

7 – ESTILO DE ÉPOCA E ESTILO INDIVIDUAL

A presente obra mostra claramente a vinculação com o Romantismo, abordando de forma clara a supremacia da voz do coração sobre a voz da razão. O caráter impulsivo dos personagens, agindo contrariamente a qualquer postura racio­nal, é freqüente nessa obra e serve para confirmar a sua clas­sificação como novela romântica. A idealização amorosa é outro dogma que Camilo não deixou escapar.
A linguagem é um ponto de relevo na obra camiliana, destacando-se pela exuberância sintática e pela riqueza voca­bular. A presença de certos lusitanismos tornam seu estilo inconfundível para os leitores acostumados, diferenciando-o dos demais novelistas românticos portugueses.
A presença do suspense vincula sua obra aos folhetins da época, denunciando a intenção de obrigar o leitor à compra do capítulo seguinte. A participação do herói romântico (Simão), que se entrega à luta por um amor impossível e até mesmo chegando à morte, é outro laço com o Romantismo e um elemento criador da ação dramática. Essa ação apresenta elementos de aventura, tais como a emboscada, a reação contra a mesma, a morte de Baltasar Coutinho, o encontro entre Simão e Teresa, a fuga de Simão, etc.
Sem dúvida, Amor de Perdição é a mais romântica das novelas do Camilo Castelo Branco desde a sua estrutura, do caráter suspensivo dos episódios até a escolha de uma linguagem emotiva.

8 – PROBLEMÁTICA E PRINCIPAIS TEMAS

A problemática principal dessa novela  parece estar li­gado ao conflito entre a idealização amorosa e a realidade social, que impede a realização plena dos sentimentos dos protagonistas. Esse conflito resulta do choque entre o eu (individualismo) e a sociedade, o coração e a razão.
Principais temas­:
a)     A idealização amorosa.
b)     O amor impossível.
c)     O conflito amoroso.
d)     A presença do triângulo amoroso (Simão - Teresa - Mariana).
e)     A intransigência paterna.
f)      A presença do amor platônico
g)     A fidelidade do amigo, numa recuperação da figura e comportamento do escudeiro medieval (João da Cruz).


AMOR DE PERDIÇÃO
De Camilo Castelo Branco

Esquema do Romance Passional
Em geral, são novelas de forte intensidade dramática, onde predomina o amor cego. Os materiais grossos com que Camilo as constrói são em geral.
·         melhores abandonadas pelos maridos;
·         homens casados seduzidos por mulheres fatais;
·         crianças expostas que milagrosamente encontram seus progenitores;
·         reconhecimentos de antigos apaixonados;
·         raptos;
·         rapazes que não se casam e abandonam o mundo;
·         amores contrariados que dão no crime ou na morte ou na loucura;
·         reclusões de raparigas apaixonadas em conventos etc.

ANÁLISE DO ROMANCE PASSONAL CAMILIANO

A – Os temas e a ação
O romance passional de Camilo explora, na generalidade dos casos, paixões eróticas violentas, que só a união dos amantes pode acalmar. Tal união, para ter incentivo, há de deparar com obstáculos:
·         ou a desigualdade ora social, ora econômica;
·         ou a inimizade entre famílias;
·         ou o matrimônio antecedente com outra pessoa.

A mulher, que é geralmente sexo fraco, é arrastada na torrente caudalosa do amor proibido ou dificultado. Que acontece depois? Tudo deságua:

O OBJETIVO
·         Ou no abandono e conseqüente solidão;
·         Ou no equívoco, seguido de reconhecimento tardio;
·         Ou na reclusão em conventos;
·         Ou na morte com juras de afeição eterna.
No romance camiliano, a posse da mulher anda geralmente ligada a idéia de crime, a idéia de pecado. Um enredo amoroso entre solteiros, a Terminar na igreja como o trata  Júlio Dinis, não interessa muito a Camilo. Ai não vislumbra dramalismo. Ele prefere homens sedutores e mulheres vítimas. Tem fatalmente de misturar o amor com a ilegalidade. Por isso, o que é a mulher no romance passional de Camilo?
·         anjo e vítima inocente, quase sempre,
·         raras vezes, satânica aniquiladora de corações.
O homem, esse é sucessivamente:
·         Apaixonado,
·         Conquistador criminoso ou cego,
·         Penitenciado do amor.

B – Os aspectos formais
O romance passional camiliano desenvolve-se sobre:
·         paixões que fazem enlouquecer;
·         personagens principais, que se exprimem em diálogos cheios de retórica e sentimentalismo;
·         interveniente secundários, muito verdadeiros e muito vivos, dialogando numa linguagem colorida e plebéia;
·         dramatização dialogal intensa e economia descritiva;
·         mistura do sátira e comentários críticos do autor com a ação sentimental.



C – O ENREDO
Domingos Botelho abandona Vila Real e vai fixar residência em Viseu, para onde fora nomeado corregedor. Leva consigo mulher e filhos. Dois deles, Manuel e Simão estudam em Coimbra.
Num palacete, separado de sua casa apenas por estreita viela, vive Tadeu de Albuquerque  com sua filha de Teresa encantadora de 15 anos. O corregedor e o fidalgo, por questões do tribunal, odeiam-se ferozmente e proíbem os respectivos filhos de falarem uns com os outros.
Simão, filho mais novo do corregedor, é um estudante  boêmio e de idéias progressistas. Depois de uma reclusão de meses no cárcere acadêmico, em Coimbra, vem passar o resto do ano letivo na casa paterna. Vê Teresa e apaixona-se por ela. Sabendo que os pais de ambos se opõem ao casamento, resolve mudar de vida, estudar e formar-se para Ter dinheiro e poder constituir um lar sem depender dos progenitores.
Tadeu de Albuquerque, a par dos amores da filha, deseja a todo o transe consorcia-la com o primo de Castro Daire, Baltazar Coutinho. Teresa resiste tenazmente e coloca Simão ao correr de tudo. Este abandona Coimbra e, para se encontrar com ela livre de suspeitas, hospeda-se na casa do ferrador João da Cruz.
De acordo com Teresa, Simão abeira-se, duas noites, do palacete onde ela mora, para lhe falar.
Baltazar descobre estas visitas noturnas e faz uma espera a tudo. Simão, que se fazia acompanhar do João da Cruz e do almocreve, é ferido por dois criados do fidalgo de Castro Daire, que pagam com a vida o atrevimento.
O estudante convalesce em casa do João da Cruz, assistido por Mariana, filha do ferrador, que se apaixona por ele, sabendo-o muito embora perdido de amores pela outra.
Teresa, entretanto, é encerrada num convento da cidade. Corresponde-se com Simão e diz-lhe que a vão afastar dali, internando-a num convento de Monchique, no Porto, e que fará a viagem acompanhada do primo Baltazar e irmãs. Simão fica desesperado com esta particularidade. Na hora da partida, aproxima-se do grupo. Dava-se de razões com Baltazar e mata-o com um tiro.
Teresa abaladíssima por tudo o que acabara de acontecer, seguiu para Monchique. Simão foi encarcerado e Mariana, aflita, não o desampara; é o seu anjo bom no cárcere. Não obstante, Simão só vê no mundo uma mulher – Teresa. E Teresa, a definhar no convento, não pensa em outra coisa que não seja o amor de Simão.
E quase três anos se passaram com os dois amoroso detrás das grades: a filha de Tadeu de Albuquerque, por nada a prender ao mundo, e o filho do corregedor, aguardando sentença definitiva.
Simão é finalmente degredado para a Índia e Mariana, já sem pai, não quer separar-se dele. Entram ambos no navio em frente de miragaia. Num mirante do convento, está um vulto a acenar. É Teresa que se despede. Simão não retira os olhos dela. Mas, de repente, o vulto dela some-se.
O comandante do navio, que veio mais tarde a terra, comunicou a morte da filha de Tadeu de Albuquerque aquele que tanto a amava. Simão não parou de chorar e não resistiu a tamanha dor. Dias depois, perto de Gilbratar, lançaram-no ao mar, envolto num sudário. Mariana com uma estátua de sofrimento, está junto da amurada. Ao mesmo tempo que o cadáver de Simão mergulha nas águas, abraçada nele vai também para o fundo uma mulher, que se atira do navio. É Mariana. Um avental ficou a boiar e junto dele um maço de papeis: eram as cartas de Teresa e Simão.
A ação que acabamos de resumir tem como antecedentes o ódio entre as famílias Botelho e Albuquerque e o amor entre Simão e Teresa. O seu desenvolvimento resumiu-o Camilo nesta frase da introdução alusiva ao protagonista principal; “amou, perdeu-se e morreu amando”. Simão amou Teresa com loucura; assassinou Baltazar Coutinho, que se intrometera entre os dois apaixonados; morreu de amor a caminho do degredo.
Nesta fábula, vislumbram-se todas as características clássicas da tragédia: pouca personagens a agir, ação interior intensa expressa sobretudo nas cartas trocadas entre os dois amorosos, uma certa fatalidade a predispor para a desgraça a Simão (que até fora batizado em perigo de vida), um desafio dos filhos aos pais desavindos e sofrimento dos protagonistas a crescer gradualmente (clímax) o autor com seus comentários a fazer de coro.
Ao lado da ação principal descobrem-se duas curtas ações marginais: o bosquejo histórico da família Botelho (cap. 1º) e os amores adúlteros de Manuel e da açoriana (cap. 16).


D – O ponto de vista do narrador
O subtítulo da obra – memória de uma família – parece sugerir-nos que Camilo pretendia, talvez em novela sucessivas, fazer toda a história dos Botelhos. A intriga assenta em fatos reais: Simão Botelho existiu na realidade e foi preso (mas por Ter ferido um criado de José Cardoso Cerqueira); foi julgado, o pai intercedeu por ele e foi condenado a degredo para a Índia (mas não morreu na viagem – chegou lá em 07/11/1807); teve um irmão chamado Manoel que deserdou e foi encoberto pelo pai. Todavia, como se vê, os fatos reais foram totalmente adulterados na novela. Algumas personagens são pura invenção.
O autor narra na terceira pessoa e, umas vezes, é onisciente como se tivesse dentro das personagens e no meio dos acontecimentos; outras vezes, porém, confessa ter tido notícias do que conta através de cartas que transcreve (mais de uma dúzia) e até através de apontamentos rascunhados por Simão.
As descrições são poucas e sumárias (convento de Viseu, ambiente que cerca Simão na altura do assassinato de Baltazar, o panorama do Porto visto da janela da prisão). Só em traços muito vagos é que sugere o retrato das personagens. Predominam o diálogo e a narração.
As peripécias são expostas com muita rapidez e economia de vocabulário, que está reduzido ao mínimo essencial da comunicação, em predomínio de substantivos e verbos, a linguagem é retórica quer nos diálogos amorosos quer nos comentários do autor: no gesto, como habitualmente no estilo camiliano, ora se reveste de eruditismo literário ora baixa ao nível popular, seguindo as personagens que a usam. Alterna em toda a novela a prosa narrativa com a prosa poética, está em evidência sobretudo nas cartas de amor.

OBSERVAÇÕES IMPORTANTES

Com amor de perdição, misto de poema, de novela e de tragédia. Camilo atinge a maturidade artística. Nessa novela persiste o binômio ideológico das novelas passionais que a precedem e da novela satírica. Ao idealismo das primeiras, associa-se, aqui,  materialismo criticado nas últimas.
Caracteristicamente novela passional, das melhores escritas na Península, está toda repassada do “eu” apaixonado e arrebatado de Camilo, que escreve a novela quando estava preso com Ana Plácido. Assim, encara o sofrimento dos jovens apaixonados à luz de seu próprio drama sentimental.
É uma obra equilibrada, com enredo conciso, em episódios dispersivos, sem um número excessivo de personagens, quase sem considerações do autor, com uma linguagem adequada, substancialmente romântica, na correspondência trocada entre Simão e Teresa, mas saborosamente popular, em João da Cruz, franca, viva, cheia de conceitos populares, e, por outro lado, intencionalmente irônica, caricatural, entre as freiras do convento, e anunciar já o escritor de transição par ao realismo (pré-realista).
O grande humanismo que consegue imprimir a obra, longe de a praticar, dá-lhe vigor a grandiosidade. Na sua sobriedade, embora sem unidade de tempo e de lugar, pelo lógico seguimento dos acontecimentos, pela narração rápida, sem quebra de unidade de ação, como que obedece ao esquema de uma tragédia clássica, onde a desbordante paixão amorosa converge para a catástrofe, em conseqüência do conflito resultante da animosidade profunda entre a família de Simão e a de Teresa, ambas – como em Romeu e Julieta – muito senhoras das suas tradições e sacrificando a elas as vitimas inocentes, os filhos.
Simão é, a princípio, o estudante moço, estouvado. Mas, depois, sublima-se pelo amor. Tem nobreza moral, é grato e digno. É possivelmente o eco do próprio tio de Camilo. Teresa, fraca fisicamente, mas moralmente forte, é a mulher-anjo, figura tão representativa da escola. Possui nobreza de alma, uma fé inabalável. A partir do momento em que começa a amar, é aureolada pela corroa do martírio.
A um “estado de alma ledo e cego/que a fortuna não deixa durar muito”, esquema psicológico típico da tragédia, corresponde a novela camiliana, não é uma felicidade vivida, mas sonhada, e rapidamente destruída. Perpassam, na obra, sonhos desfeitos ou destruídos pela morte, pelos assassinatos, pelos distúrbios.
A atmosfera inquieta e cheia de tormentos efetivos aumenta progressivamente até à causa do desenlace fatal para os dois jovens – a morte de Baltazar. Depois, os acontecimentos precipitam-se e agravam-se com a morte de João da Cruz, a morte de Mariana e a dos dois amorosos.


[1] Antônio José Saraiva e Oscar Lopes.
[2] Presença do leito incluso.

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