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domingo, 3 de outubro de 2010

UFRA - CONTOS AMAZÔNICOS - A C A U Ã

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No inicio da narrativa, temos o capitão Jerônimo, morador da antiga vila de São João Batista de Faro, que voltava de uma caçada, e ainda sentia um profundo pesar pela falta de sua mulher que havia morrido subitamente, e deixou uma filhinha de dois anos, Aninha.
A sua casa era a primeira do povoado. Junto com ele estava o silêncio e a solidão, e o capitão já estava acostumado àquela melancolia de Faro, talvez o mais triste dos povoados do Amazonas. A vila até pela manhã é calma, quando chega à noite o lugarejo ficava mais triste ainda.
Já era noite e o caçador regressava para a sua casa, pensando no sorriso de sua filha, não trouxe nenhuma caça, foi um dia ruim. Era uma sexta-feira.
O caminho ficava cada vez mais estranho, procurou orientação através das estrelas, mas não às viu. O céu ficava ameaçador. De repente um enorme clarão rasgando o céu,e o caçador viu que sua vila não estava distante, porém parece que o homem errará de novo.
Chegou a uma rua, mas não era a sua, esperou outro relâmpago para orientar-se.
Nenhuma voz humana em toda a vila. O Capitão Jerônimo não podia mais dar um passo, pois já não sabia onde estava. Quando das profundezas do rio um ruído foi crescendo, como o barulho no juízo final.
Ele sabia que aquele barulho, só podia ser da cobra grande a colossal sicuriju (sucuri), era o lamento do monstro no seu trabalho de parto.
O capitão mal conseguia fazer sinal da cruz, de tanto medo que corria em todo seu corpo. Correu em direção que imaginava estar sua casa, mas a voz aumentava tanto que acabou o barulho, fazendo o pobre capitão desmaiar na frente de uma porta.
Quando surge um grande pássaro, que voou cantando:
- Acauã, Acauã!
Jerônimo ficou muito tempo desacordado, quando recobrou a consciência, a noite ainda estava escura e olhou para a lagoa e viu um estranho objeto, era uma canoa, com certo medo e curiosidade, viu que dentro dela estava uma criança, que estava adormecida, e ele a pegou nos braços.
Quando amanheceu, o capitão reconheceu a sua porta e a sua casa.
No outro dia a vila de Faro comentava sobre a criança que Jerônimo adotara que foi achada à beira do rio. Deu o nome de Vitória, e amava como sua própria filha Aninha.
As duas tinham 14 anos, porém os tipos eram diferentes; Ana fora uma criança robusta e sã, agora franzina e pálida, um olhar doente; Vitória era alta e magra, com músculos de aço, sobrancelhas negras e arqueadas, as narinas dilatadas, os olhos negros rasgados de um brilho estranho que fitava os homens com arrogância, até obrigados a baixar os olhos. Apesar de tudo isso, tinha algo masculino nas suas feições.
Tinham a maior intimidade, porém observando com mais atenção, Aninha procurava evitar a companhia de Vitória. Notava-se um certo acanhamento, um sofrimento, algo terrível quando Vitória olhava para Aninha, que parecia uma escrava junto da sua senhora.
Um dia Jerônimo começou a notar que sua filha adotiva ausentava-se frequentemente e nas horas impróprias, levantando suspeitas, e não falava para onde ia.
No mesmo tempo Aninha ficava cada vez mais fraca, mais triste, parecia perder a energia da vida.
Aninha não sabia o quê responder para o pai, aquele cansaço e abatimento; já Vitória tratava de uma forma agressiva, quando o pai perguntava sobre sua ausência. Um dia Aninha começou a namorar um rapaz, filho de um fazendeiro do Salé, bem apessoado, boa reputação, ficando até noiva do jovem. Mas um dia Aninha, trêmula e balbuciando, anunciou ao pai que não queria mais casar, o capitão ficou surpreso, mas acatou a decisão da filha.
Entretanto, a moléstia de Aninha se agravava e todos na vila notavam, chegando a ponto de preocupar o próprio capitão.
No ano seguinte o pai, arranjou um novo casamento, este com Ribeirinho, o coletor. Daí alguns dias depois Aninha disse que não queria casar. Desta vez o pai negou o pedido e exclamou: “- Pois agora há de casar que quero eu.”
Vitória mostrava-se indignada e ao mesmo tempo furiosa, e nem mais dirigia a palavra ao pai.
No dia do casamento, todos da vila estavam presentes, menos Vitória, que desapareceu.
No momento que o padre perguntou a Aninha se casara por seu gosto, a mesma de repente ficou com as pernas trêmulas ao olhar para a porta lateral da sacristia. O pai ansioso e temeroso segue o olhar da filha, e lá estava Vitória, como uma defunta, tinha cabeleira feita de cobras suas narinas dilatadas, um olhar terrível, a boca entreaberta mostrava a língua bipartida, como língua de serpente. De repente arma-se uma grande confusão Aninha solta um terrível grito no altar e cai. Jerônimo não tirava o olhar de Vitória e lembrava o dia que a encontrou na canoa, momento depois Vitória dá um grito medonho e desaparece.
Aninha retorcia-se perante todos na igreja, os dentes rangiam, os olhos reviravam e uivava, deixando a todos chocados. O pai chorava feito uma criança. Depois foi parando e dobrou os braços como se fossem asas de um pássaro, bateu por várias vezes e deixou sair um grito nada humano:
- Acauã!
Por cima do telhado uma voz respondeu a Aninha:
 - Acauã!
E assim continuou o silêncio dos presentes, contrastava com o bramido de Aninha.

Era o Acauã!


Sobre o conto

Temos no conto as histórias da Cobra Grande e do Pássaro Acauã, conduzindo assim o leitor moderno ao mundo maravilhoso da Amazônia.
O espaço que gira a narrativa mostra-se bem simples e comum, porém cede lugar para o maravilhoso, o sobrenatural.
“Também quem lhe mandara sair à caça em sexta-feira ?.(”...)

“Trovões furibundos começaram a atroar os ares. RELÂMPAGOS AMUIDAVAM-SE inundando de luz rápida e viva as maltas e os grupos de habitações, que logo depois ficavam mais sombrios.”(...)

Do fundo do rio, das profundezas da lagoa formada pelo Nhamundá levantava-se um ruído que foi crescendo, crescendo e se tornou um clamor horrível., insano, uma voz sem nome que dominava todos os ruídos da tempestade. Era um clamor só comparável ao brado imenso que hão de soltar os condenados no dia do juízo final.
(...)
“Mas a voz, a terrível voz aumentava de volume.Cresceu mais, cresceu tanto afinal, que os ouvidos do capitão zumbiram, tremeram-lhe as pernas e caiu no limiar de um aporta.”(...)
O alegórico continua a aparecer no conto, quando o capitão Jerônimo avista um estranho objeto no rio.
“Jerônimo, procurando orientar-se, olhou para a lagoa e viu que a superfície das águas tinha um brilho estranho, como se a tivessem untado de fósforo. Deixou errar o olhar sobre a toalha do rio, e um objeto estranho, afetando a forma de uma canoa, chamou-lhe a atenção. O objeto vinha impelido por uma força desconhecida em direção à praia, para o lado em que se achava Jerônimo. Este, tomado de uma curiosidade invencível, adiantou-se, meteu os pés na água e puxou para si o estranho objeto. Era com efeito uma pequena canoa, e no fundo dele estava uma criança que parecia dormir.”(...)
O capitão antes de encontrar a criança estava perdido, não conseguindo encontrar o rumo de sua casa, porém tudo esclarece, surge o sol, e ele desmaia, justamente, em frente de sua casa.
Temos a primeira aparição do acauã.
“Com a queda espantou um grande pássaro escuro que ali parecia pousado, e que voou cantando:
— Acauã, acauã!”
A aparição do pássaro seria a prenuncia do agouro, sendo assim alguma desgraça iria acontecer na vida de Jerônimo. A filha legítima começou a sentir a desgraça, com a chegada de Vitória. “Ana fora uma criança robusta e sã, era agora franzina e pálida. Os anelados cabelos castanhos caiam-lhe sobre as alvas e magras espáduas. Os olhos tinham uma languidez doentia. A boca andava sempre contraída, em uma constante vontade de chorar. Raras rugas divisavam-se-lhe nos cantos da boca e na fronte baixa, algum tanto cavado. Sem que nunca a tivessem visto verter uma lágrima, Aninha tinha um ar tristonho, que a todos impressionava, e se ia tornando cada dia mais visível”.
Ao mesmo tempo em que Aninha parecia dominada pelo mágico, Vitória, sua irmã adotiva, também passava por mudanças completamente contrária a de Aninha.
“Vitória era alta e magra, de complexão forte, com os músculos de aço. A tez era morena, quase escura, as sobrancelhas negras e arqueadas; o queixo fino e pontudo, as narinas dilatadas, os olhos negros, rasgados, de um brilho estranho ...”.
 Em “Acauã”, a aparição do pássaro é tida como prenúncio do episódio sobrenatural; os presentes na igreja recorrem a uma explicação mágica para fenômeno da antropozoomorfização.
Linguagem: encontramos uma linguagem coloquial e regional, típica do povo amazônico.

Principais personagens:
·         Capitão Jerônimo: Era um caçador. Morava na antiga vila de S. João de Faro. Era viúvo. Sua mulher morreu deixando para o esposo a filhinha de dois anos de idade.
·         Aninha: Filha legítima do capitão Jerônimo. Era uma linda menina que foi se tornando frágil e doente após ser “enfeitiçada“ por Vitória.
·         Vitória: Filha adotiva do capitão. Tinha o poder de enfeitiçar Aninha.
Foco narrativo: Narrada em terceira pessoa por um narrador onisciente e onipresente que não revela seu nome. Ele não participa dos acontecimentos do conto.

Temática: As lendas e crendices do povo amazônico.

Tempo: Cronológico, pois o narrador faz referencias ã noite de sexta-feira, aos anos que se passaram após a doação de Vitória.

Espaço: Faro ”talvez o mais triste e abandonado dos povoados do Amazonas”.


CONSIDERAÇÕES SOBRE ACAUÃ

                Esse é o conto sobre o qual mais tenho a falar, por se tratar daquele que mais analisei dentre as narrativas de Inglês de Sousa, de modo que o que apresentarei aqui é a reunião de algumas conclusões a que cheguei durante esse tempo em que venho estudando a obra do autor, especialmente argumentos retirados do artigo Acauã de Inglês de Sousa: o conto de base triangular, publicado em 2000, porém pouco conhecido.
                Vicente Salles informa que Acauã foi "inicialmente publicado na Revista Brasileira, ano 1, n. 33, 1880, pp. 211-223" (1990, p. 17).
                Como de praxe, destaco o título do conto, Acauã, que se reporta ao pássaro de mesmo nome. Dentre o levantamento que fiz em dicionários especializados e em outros livros, registrei diversas informações sobre a ave. O Acauã, ou uacauã, macauã ou ainda uacauan, é um pássaro ao qual são atribuídas várias características, prevalecendo, porém, as negativas, dentre as quais a mais conhecida é a de que seu canto seria de mau agouro. Aliás, é exatamente por causa de seu canto que ele é assim chamado, Acauã, pois é como se ele estivesse chamando seu próprio nome. Porém, Silveira Bueno afirma que o nome da ave vem "De aca, briguento, violento e , canto da ave" (1984, p. 33), canto da ave briguenta, o que não deixa de enfatizar ainda mais o aspecto "negativo" do Acauã.
                É justamente o fato de o Acauã emitir um canto de mau agouro que justifica o que está relatado no seguinte trecho do poema de Ludovico Lins (pseudônimo de João de Belém), que serviu de epígrafe ao presente estudo:

                               Quando Morreu minha amada,
                               Vinha nascendo a manhã;
                               três vezes na encruzilhada
                               Ouvi cantar o acauã (apud Oliveira, 1951, p. 182).

                Nota-se perfeitamente o aspecto negativo no canto do Acauã, o que dispensa maiores comentários.
                Ter um canto agourento não é exclusividade do Acauã, outros pássaros também possuem tal marca, muitos aqui mesmo, na Região Amazônica, como é o caso do murucututu, segundo o naturalista Alfred Russel Wallace, "uma variedade de coruja" (1979, p. 220), o qual figura no conto Acauã exatamente com a característica aqui apontada: "só se ouve na povoação o pio agourento do murucututu" (1893, p. 82); outro pássaro que possui o mesmo atributo é o que é vulgarmente conhecido no Vale do Amazonas como rasga mortalha; Frederico José Santa-Anna Nery, no final do século XIX, registra que "Se ele canta perto duma casa, é indício de morte ou, pelo menos, de doença grave" (1992, p. 78), e, a esse propósito, já me deparei inúmeras vezes com as mesmas manifestações de credulidade, em minhas pesquisas de campo em busca das narrativas orais.
                No caso específico de Acauã, há diversos relatos devidamente registrados por pesquisadores; dentre estes estão:
                — Gonçalves Dias: segundo ele o "Acauã, e também macauoã, ave conhecida: mata cobras, sustentando com ela os filhos, e pendura-lhes, como troféu, as peles nas árvores em que habita (...) Os ovos, secos e feitos em pó, são contraveneno do das cobras. Tem esta ave a cabeça grande, cor cinzenta, barriga peito e pescoço vermelhos, costas pardas, asas e cauda pretas, malhadas de branco" (apud Cascudo, 1972, p. 11).
                — Raymundo Moraes: descreve o Acauã como sendo "uma ave agourenta que com cobra", e complementa afirmando que "Em Faro há uma lenda sobre esta espécie de gavião. Dizem que ele obriga os homens, com seu canto sarcástico, a chocarem pedra" (1931, v.1, p. 43).
                — Denis, anotando D'Evreux: afirma que "Pensa (...) a maior parte dos índios que a missão deste pássaro é anunciar-lhe a chegada de um hóspede" (Cascudo, 1972, p. 43).
                — Soares de Sousa: relata que o "embate [do Acauã] coma  cobra lembra o embate do mirmilão (sic) com o reciário. O acauã ataca e se abriga no escudo da asa estendida, até que fisga a cabeça da cobra" (apud Cascudo, 1972, p. 43).
                — Barbosa Rodrigues: conta que há uma "moléstia (...) própria de Faro" e que "No Amazonas diz-se 'pegada de acauã'" a quem estiver doente. Relata ainda que "assistiu uma moça pegada de acauã em Faro: 'Aí numa rede estava deitada uma tapuia ainda moça, solteira, reclinada molemente, como se dormisse, com um sorriso nas faces, parecendo dormir, porém completamente sem sentidos. Orfava-lhe o peito fortemente, parecendo querer estalar, quando, cantando, pronunciava as palavras: uacauan!... uacauan!... que repetia seguidamente, terminando numa gargalhada estrídula como a do pássaro. Passados alguns momentos de silêncio, recomeçava o canto... servi-me d'água fria. Borrifei-lhe as faces. Teve como que um movimento de susto e parou de cantar. Com uma colher, descerrei-lhe os dentes e dei-lhe alguns goles, que engoliu, produzindo ânsias. Momentos depois, estendeu convulsamente os braços, arqueou o corpo para trás, fez um movimento de espreguiçar-se e entreabriu os olhos. Reanimou-se... Perguntando-lhe o que sofria ou estava sentindo, respondeu-me uma ligeira dor de cabeça, opressão no peito e muito cansaço. Durante o acesso, seus membros estavam no seu estado normal; não havia contração nervosa; o pulso era pequeno e sumido: a pele do corpo seca, coberta de suor frio na fronte; as extremidades também frias, e o peito orfava com força. Começava por tristeza ou dores de cabeça. É um verdadeiro caso de histerismo. A causa da moléstia, toda nervosa e contagiosa, é o efeito da superstição. Aquela que ouve cantar a uacauã fica certa de que eminente lhe está uma desgraça. A imaginação começa a trabalhar, e o resultado é terminar sempre a tristeza por um ataque nervoso, em que a doente arremeda o pássaro, dando não só a entonação do canto, como modulando as sílabas" (apud Cascudo, 1972, p. 13).
                — D'Evreux: expõe que "dizem que os diabos com eles [acauã e outras aves noturnas] convivem, que, quando põem, é um ovo em cada lugar, e assim por diante, que são cobertos pelo diabo, e que só comem terra" (apud Cascudo, 1972, p. 11).
                O Acauã, além de estar no conto aqui referido, aparece também em outros trechos do livro Contos Amazônicos; em A Feiticeira: "[Antônio de Sousa] Ficava impassível vendo cair uma estrela, e achava graça ao canto agoureiro do Acauã, que tantas desgraças ocasiona" (1893, p. 36); na novela O Rebelde: "A vista duma feiticeira enchia-me de gozo. Sentia do desejo ardente de ver um lobisomem, e o canto agoureiro do acauã fazia-me estremecer de susto e de prazer" (1893, p. 178).
                É importante ressaltar que, nas duas citações feitas anteriormente, a característica destacada na figura do Acauã foi o canto agoureiro, o que corrobora o que foi afirmado no início deste estudo: o canto agoureiro é a característica mais marcante do Acauã, também destacável no romance O Cacaulista:

                Às vezes por cima do teto ouvia-se o lúgubre canto do acauã agoureiro, que passava; as mulatas entreolhavam-se com terror e calavam-se por um momento; D. Ana fechava os olhos, como se receasse ver o pássaro, mensageiro da desgraça; mas este susto inspirado pelo acauã era passageiro, e a serenidade restabelecia-se no rosto da respeitável senhora (1973, p. 4).

                Essas citações levantadas servem para mostrar que o Acauã está sempre a cantar nas páginas de Inglês de Sousa, daí a importância do pássaro e do conto no todo da obra do escritor.
                Algumas das referências destacadas a respeito do Acauã serão importantes para a compreensão de determinados aspectos do conto, porém as utilizarei em momento oportuno.
                Os personagens de maior destaque, no conto, são: Jerônimo, Aninha e Vitória. Portanto, se estabelece, entre eles, uma ligação do tipo triangular, na qual um dos lados, o que liga Aninha a Vitória, encontra-se corroído, como aparece de forma explícita no seguinte trecho:

                As duas companheiras afetavam a maior intimidade e ternura recíproca, mas o observador atento notaria que Aninha evitava a companhia da outra, ao passo que esta não a deixava (1893, p. 88).

                Quanto a Jerônimo, suas ligações com os outros vértices do triângulo inicialmente são harmoniosas: "Educada da mesma forma que Aninha, [Vitória] participava da mesa, dos carinhos e afagos do capitão" (1893, p. 87).
                Mas no decorrer da narrativa a situação muda, a relação de Jerônimo com Vitória também passa a ser conturbada. Tudo isso ocorreu porque Vitória "Já não dirigia a palavra a seu protetor nem a pessoa alguma da casa" (1893, p. 93).
                A partir dessas preliminares, pode-se afirmar que Aninha representa a visão estereotipada que se tem da mulher. Segundo Ilane Ferreira Cavalcante, "Da mulher exige-se a docilidade, a submissão, a insegurança e a obediência" (1993, p. 505). E Aninha de fato se enquadra nesses pressupostos, o que é exposto no momento em que seu pai lhe impõe o casamento, e ela não protesta verbalmente: "– Pois agora há de casar que o quero eu" (1893, p. 92).
                Enquanto Aninha representa o estereótipo feminino, constituindo-se na "Santa" (termo encontrado em Cavalcante), Vitória é o oposto, pois foge a todos os padrões a que aquela se enquadra. Assim, Vitória representa a "Outra", denominação que lhe é atribuída neste trecho da narrativa para salientar o antagonismo entre ela e Aninha, a "Outra" e a "Santa":

                Quando o pai chegava-se a ela, e lhe perguntava carinhosamente: / – Que tens, Aninha? / A menina, olhando assustada para os cantos, respondia em voz cortada de soluços: / – Nada, papai. / A outra, quando Jerônimo a repreendia pelas inexplicáveis ausências, dizia com altivez e pronunciando desdém: / – E o que tem vosmecê com isso? (1893, p. 89-90).

                A relação de Aninha e Vitória é uma relação de poder; e Aninha personifica o Acauã, pois é ao pássaro que ela se identifica ao final da narrativa, inclusive cantando como ele, e Vitória, a Medusa, como se observa no momento de sua metamorfose, quando ela aparece com uma "cabeleira feita de cobras" (1893, p. 94). Quando não estão personificadas, Aninha sente-se inferior à Vitória, e até mesmo intimidada por ela; este fato é atestado pelas relações diárias das duas:

                Nas relações de todos os dias, a voz da filha da casa mal era segura e trêmula; a de Vitória áspera e dura. Aninha, ao pé de Vitória parecia uma escrava junto da senhora (1893, p. 89).

                Porém, quando personificadas, a situação se inverte, Aninha, o Acauã, supera Vitória, a Medusa: "Aninha soltou um grito de agonia (...) Vitória, (...) dando um terrível brado, desapareceu, sem se saber como" (1893, p. 94-95).
                Essa fuga pode ser justificada pelo fato de o Acauã se alimentar de cobras, que fogem ao ouvir o canto do pássaro.
                E é também importante se ressaltar um fato curioso, o de um outro Acauã responder o canto de Aninha: "E a moça (...) continuou aquele canto lúgubre: / – Acauã! Acauã! / Por cima do telhado, uma voz respondeu à de Aninha: / – Acauã! Acauã!" (1893, p. 96).
                O "canto lúgubre" equivale ao "pio agoureiro do murucututu" e ao "lúgubre uivar dalgum cão vagabundo" do início do conto, pois a expressão referida carrega implicitamente o termo "agoureiro", que é característica marcante do Acauã, o que já foi amplamente discutido anteriormente.
                Até o presente momento só fora constatados os pontos de divergência entre Aninha e Vitória. Mas elas têm um ponto de intersecção, o homem. Este é vítima tanto do Acauã quanto da Medusa; e no conto ele é representado por Jerônimo. O homem é vítima do Acauã porque, de acordo com informação de Moraes, "Em Faro há uma lenda sobre essa espécie de gavião. Dizem que obriga os homens, com seu canto sarcástico, a chocarem pedra" (1931, v.1, p. 43); e da Medusa, porque petrifica os homens que contemplam sua cabeça.
                 O Acauã, ao fazer o homem chocar pedra, está absorvendo o poder da Medusa, visto que é em pedra que ela transforma os que a contemplam, e, assim, reduz a masculinidade do homem, o que o aproxima da mulher e, como será visto a seguir, o deixa imune ao poder da Medusa; mas esta característica de chocar pedras não aprece no conto, foi colocada aqui apenas para ilustrar as relações das personagens.
                Voltando ao antagonismo entre Aninha e Vitória, este se revela em muitas características atribuídas a elas: franzina e pálida versus alta, magra e músculos de aço; o olhar/olho é um outro aspecto que delata o antagonismo entre as personagens. Enquanto "Os olhos [de Aninha] tinham uma languidez doentia" (1893, p. 87), os de Vitória eram "negros, rasgados, de um brilho estranho", "grandes olhos negros" que causam "um terror vago" quando são cravados "nos olhos dúbios e amortecidos" (1893, p. 88) de Aninha. Esta "co o olhar fixo na porta lateral da sacristia" (1893, p. 94), onde está Vitória já transformada, "hirta como defunta" (1893, p. 94), tem fixo sobre si "um olhar horrível, olhar de demônio, um olhar frio que parecia querer pregá-la imóvel no chão" (1893, p. 94).
                Surge aqui, com esse último trecho citado, mais uma característica da Medusa; segundo Camille Paglia, somente "Homens, jamais mulheres, transformam-se em pedra quando contemplam a Medusa" (1992, p. 55), e eis a razão do homem feminilizado pelo poder do Acauã (chocar pedras) tornar-se de certo modo imune à Medusa.
                A falta de movimento das personagens é evidente do referido trecho da narrativa: "A pobre noiva [Aninha] (...) esta hirta e pálida" (1893, p. 95) / "De pé, à porta da sacristia, [Vitória] hirta como uma defunta" (1893, p. 94). O adjetivo hirta é comum às antagonistas, diferenciando-se apenas as circunstâncias em que ele é atribuído a cada uma delas; à Vitória, quando ela revela sua forma: "com uma cabeleira feita de cobras" (1893, p. 94); e à Aninha, no momento em que "Dous fios de lágrimas (...)corriam-lhe pela face" (1893, p. 95).
                As lágrimas são, por um lado, o início da grande revelação da narrativa, a doença de Aninha, já que "a desconhecida moléstia de Aninha se agravava, a ponto de impressionar seriamente o capitão Jerônimo e a toda a gente da vila" (1893, p. 91). Tal revelação foi pressagiada por Jerônimo através de "um pressentimento negro" (1893, p. 91).
                Depois das lágrimas, "Então convulsões terríveis se apoderaram do corpo de Aninha" (1893, p. 91).
                e, por outro lado, as lágrimas são a conseqüência de uma violação; este ponto poderia ser tocado quando tratei do olhar, mas foi mais propício esperar as lágrimas. Segundo Paglia, "O poder da visão é sexual, é agressivo. Ver é possuir; ser visto é ser violado" (1992, p. 388). Essa citação traz à tona a hipótese da lesbianidade das duas personagens, Aninha e Vitória; portanto, no momento em que Vitória "fixava em Aninha um olhar terrível, olhar de demônio, olhar frio que parecia querer pregá-la imóvel no chão" (1893, p. 94), trata-se de um olhar de violação sexual, pois somente parecia querer pregá-la imóvel no chão, diferente do ocorrido com Jerônimo: "Só o capitão Jerônimo (...) não podia despregar os olhos da pessoa de Vitória" (1893, p. 94), como se estivesse de fato petrificado. E a hipótese da homossexualidade é reforçada pelas atitudes de Vitória: por ocasião do rompimento do noivado de Aninha com o filho de um fazendeiro do Salé: "Em Faro não se falou em outra cousa durante muito tempo, senão na inconstância da Aninha Ferreira. Somente Vitória nada dizia" (1893, p. 91), mostrando a sua satisfação com o rompimento; e por ocasião do cárcere de Aninha, para aguardar o dia de seu casamento com seu Ribeirinho, o coletor: "a agitação de Vitória era extrema" (1893, p. 92).
                A violação proveniente do olhar é fortemente demarcada pe,a associação feita pelo narrador entre as lágrimas e um colar: "Dous grandes fios de lágrimas, como contas dum colar desfeito, corriam-lhe pela face" (1893, p. 95).
                A relação íntima entre as duas é evidente em mais três trechos do conto: "As duas companheiras afetavam a maior intimidade e ternura recíproca" (1893, p. 88); "A filha do Jerônimo [Aninha] era meiga para com a companheira [Vitória]" (1893, p. 88); e "[Vitória] Entrava a todo o momento no quarto da companheira" (1893, p. 92).
                Note-se que a palavra "companheira"denuncia o relacionamento, pois as definições dadas a esse vocábulo, segundo Aurélio, são as seguintes: "1.Mulher que acompanha. 2.Mulher com relação à pessoa com quem vive. 3.Pop.Esposa (2). 4.Coisa que acompanha" (2004, p. 507).
                O fato de Vitória entrar "a todo momento" no quarto da "companheira" e sair em seguida expõe de forma velada a homossexualidade das duas personagens antagônicas, pois, como informa Bruno Bettelheim, "Um quartinho trancado costuma representar em sonhos os órgãos sexuais femininos e o giro de uma chave na fechadura simboliza a cópula" (1980, p. 273). E isso no conto é destacável, já que "Aninha foi para o seu quarto, e á ficou encerrada até o dia do casamento" (1893, p. 92); portanto, o único meio de entrar no quarto é com o uso de uma chave, pois Aninha estava encerrada, enclausurada, e Vitória é quem entra no quarto, com o auxílio da chave, um símbolo fálico. Tem-se aí a representação perfeita de um coito, de uma cópula, da violação, semelhante à violação proveniente do olhar, anteriormente exposta.
                Um outro aspecto que chama atenção é o fato de Vitória ter em si uma masculinidade evidente: "Apesar da incontestável formosura, [Vitória] tinha alguma coisa de masculino nas feições e nos modos" (1893, p. 88).
                O caráter fálico também é destacado na personagem, patente na exposição de sua língua: "A boca entreaberta mostrava a língua fina, bipartida como língua de serpente" (1893, p. 94).
                A serpente, biblicamente, está diretamente relacionada ao pecado, o que também reforça a hipótese da lesbianidade entre Aninha e Vitória.
                Pelo que se depreende do que foi argumentado até aqui, Acauã é um conto de expressão homossexual, de modo que me sinto tentado a afirmar que ele talvez seja o mais antigo relato de amor lésbico na História da Literatura brasileira, hipótese que ainda precisa ser avaliada com mais profundidade, para que não haja equívoco.
                Quanto ao cenário da narrativa, há que se destacar determinadas informações, posto que se trata de um espaço que realmente existe e não uma criação de Inglês de Sousa. Faro, de acordo com a Enciclopédia dos Municípios Brasileiros – EMB, teve sua origem "em uma aldeia de índios Uaboys ou Jamundás" (1957, p. 364). Segundo essa mesma fonte, coube "aos capuchos da Província de N. S. Da Piedade as honras de primeiros Missionários daqueles filhos das selvas" (1957, p. 364); tias religiosos são bastante conhecidos pela construção do Convento de São José, onde até pouco tempo funcionava o Presídio de mesmo nome, recentemente desativado para a construção de um importante espaço cultural, o pólo Joalheiro São José Liberto.
                O Nhamundá é  o rio que banha a cidade, e no conto esse fato não é ignorado: "Ele já estava habituado à melancolia de Faro (...) posto que se mire nas águas do Nhamundá, o mais belo curso d'água de toda a região" (1893, p. 82).
                Tal rio é considerado "o mais belo curso d'água de toda a região", segundo a EMB, "pelos seus variados aspectos naturais" (1957, p. 366); Theodoro Braga complementa a esse respeito afirmando que Nhamundá "topograficamente é belíssimo, sobretudo no verão em que suas imensas e alvíssimas praias se descobrem" (1919, p. 409).
                No seguinte trecho do conto, pode-se destacar outras características do cenário:

                Faro é sempre deserta. A menos que não seja algum dia de festa, em que a gente das vizinhas fazendas venha ao povoado, quase não se encontra viva alma nas ruas. Mas se isso acontece à luz do sol, às horas de trabalho e de passeio, à noite a solidão aumenta. As ruas, quando não sai a lua, são duma escuridão pavorosa (1893, p. 82).

                A respeito "das vizinhas fazendas", Braga afirma, em 1919, que "A indústria pastoril é formada por 230 fazendas de criação" (1919, p. 408). Com base nesse relato, acredita-se que  o narrador esteja se referindo a essas fazendas de que fala Braga, ou pelo menos a algumas delas.
                Quanto à solidão noturna em Faro, esta também é exposta no seguinte trecho: "Faro parecia morta" (1893, p. 84), e é enfatizada adiante: "Um silêncio tumular reinava" (1893, p. 86), silêncio que só se rompeu quando nasceu o sol entre os aningais de uma ilha vizinha" (1893, p. 86).
                E no que se refere a "algum dia de festa" (1893, p. 82), a principal festa de Faro, conforme a EMB, "é a de S. João Batista, patrono da cidade, que se realiza de 14 a 24 de junho" (1957, p. 367). Segundo Wallace, num relato colhido em meados do século XIX,

                Nessa festa é costume acender fogueira e saltar sobre elas, ou mesmo atravessá-las. Tais atos são considerados pelas pessoas do povo como parte importante das cerimônias religiosas (1979, p. 239).

                No conto, a festa é mencionada no seguinte trecho: "viera passar o S. João em Faro" (1893, p. 90). Daí vem a denominação primeira dada ao local. Denominação esta que é exposta no início da narrativa: "morador da antiga vila de S. João Batista de Faro" (1893, p. 81).
                Nota-se aí a presença do adjetivo "antiga" que dá a entender que aquele é um nome que não se usa mais porque não se trata mais de uma vila (então por que a insistência da denominação "vila" no conto?); ou que a localidade é de fato "antiga", com relação aos eu tempo de existência.
                O cenário da narrativa, partindo-se do nome original do lugar, "vila de S. João Batista de Faro", é chamado, do segundo parágrafo em diante, ora de "vila" ora de "Faro": "à medida que se aproximava da vila" (1893, p. 81-82) e "à melancolia de Faro" (1893, p. 87).
                E assim as duas denominações vão se alternando no decorrer do conto, mas em uma passagem elas se juntam: "toda a vila de Faro" (1893, p. 87).
                Seria a soma das duas designações recorrentes no conto e/ou a utilização da primeira e da última palavras do nome original; ambas as hipóteses usam, como ponte de ligação entre as partes, a preposição "de", que já existia na denominação original: vila + de + Faro = vila de Faro / vila de S. João Batista de Faro = vila de Faro.
                Faro, sendo cenário da narrativa, revela com antecipação os acontecimentos funestos que viriam a ocorrer no conto, pois o fato de mirar-se nas águas já constitui um presságio de mau-agouro: "Faro, talvez o mais triste e abandonado dos povoados do vale do Amazonas, posto que se mire nas águas do Nhamundá" (1893, p. 82).
                Gilbert Durand afirma que "Mirar-se é já, de algum modo (...) participar da vida das sombras", e diz ainda que "a água constitui um espelho originário" (1997, p. 100). Mas caso se pense a partir da informação de Hans Biedermann: "os espelhos são amuletos que protegem de forças e seres satânicos" (1993, p. 142), não se chegará a conclusão de que tal fato é um mau presságio, mas sim à oposta, que é contrariada pelo próprio enunciado, que diz que devido ao fato de mirar-se nas águas no Nhamundá é que Faro é "talvez o mais triste e abandonado dos povoados do vale do Amazonas", e além do mais é da água "o espelho originário" de Durand, que vem o mal:

                Do findo do rio, das profundezas da lagoa formada pelo Nhamundá levantava-se um ruído que foi crescendo, crescendo e se tornou um clamor horrível, insano (1893, p. 84-85).

                Essa afirmativa também pode ser atestada pela seguinte citação:

                Jerônimo, procurando orientar-se, olhou para a lagoa, e viu que a superfície das águas tinha um brilho estranho, como se a tivessem untado de fósforo. Deixou errar o olhar sobre a toalha do rio, e um objeto estranho, afetando a forma de uma canoa chamou-lhe a atenção. O objeto vinha impelido por uma força desconhecida em direção à praia, para o lado em que se achava Jerônimo (1893, p. 86).

                E já que o cenário está diretamente relacionado com seus habitantes, cumpre aqui também se comentar o papel destes no conto, especialmente os coadjuvantes e figurantes, em especial a população de Faro, seu comportamento e seus costumes.
                No conto, a população local é designada pela locução adjetiva "da vila": "e por quase toda a população da vila" (1893, p. 93). Porém também é denominada de outras formas, como "gente da vila" (1893, p. 91).
                Em outro trecho a locução "da vila" está subentendida: "dizia toda a gente" (1893, p. 88), pois a expressão "toda a gente" serve de determinante para tal subentendido.
                Outra maneira de determinar os moradores é "multidão" (1893, p. 95), que recebe outra denominação no final do conto: "Todos compreendiam" (1893, p. 96).
                Quanto ao comportamento dos habitantes no conto, podem se destacar alguns aspectos; assim como em toda a pequena cidade, em Faro as notícias se espalham com rapidez: "No dia seguinte toda a vila de Faro dizia que o capitão adotara uma linda criança" (1893, p. 87). E as fofocas são inevitáveis: "Na vila, dizia toda a gente: / – Como está magra e abatida a Aninha Ferreira" (1893, p. 87) e "Em Faro, não se falou em outra coisa durante muito tempo" (1893, p. 91). Como o narrador de O Coronel Sangrado expõe, manter sua vida longe dos olhos alheios é

                coisa dificílima numa pequena povoação, onde a maledicência é a única distração, é uma coisa estabelecida, com que pessoa alguma se importa, mesmo porque os que a sofrem hoje pagam-se amanhã na mesma moeda (1968, p. 12).

                Também é evidente um tem a que foi abordado por José de Alencar, em Senhora (1875), e pelo próprio Inglês de Sousa, em O Coronel Sangrado (1877): a prática de casamentos arranjados. Em Senhora:

                Trata-se de uma moça, sofrivelmente rica, bonitota, a quem a família deseja casar quanto antes. Desconfiando desses peralvilhos que por aí andam a farejar dotes, e receando que a menina de repente possa enfeitiçar-se por algum dos tais bonifrates, assentou de procurar um moço sisudo, de boa posição, embora seja pobre; porque são justamente os pobres que sabem melhor o valor do dinheiro, e compreendem a necessidade de poupá-lo, em vez de atirá-lo janela à fora, como fazem os filhos dos ricaços (1975, p. 40).

                Em O Coronel Sangrado:

                Para mim é fora de dúvida – dizia o capitão Martins –, nem é novidade que se espante. Ainda antes do moço cá chegar eu já ouvira rosnar alguma coisa a esse respeito; parece que o casamento foi contratado desde o tempo em que os dois eram pequerruchos (1986, p. 77).

                E no Acauã:

                No ano seguinte, o coletor apresentou-se pretendente à filha do abastado Jerônimo Ferreira: / –Olhe, seu Ribeirinho, disse-lhe o capitão, é se ela muito bem quiser, porque não a quero obrigar. mas já lhe dou uma resposta nesta meia hora. / Foi ter coma filha, e achou-a nas melhores disposições para o casamento. andou chamar o coletor, que se retirara discretamente, e lhe disse muito contente: / – Toque lá, seu Ribeirinho, é negócio arranjado (1893, p. 91-92).

                Tal afirmativa feita anteriormente é confirmada pela totalidade do trecho citado, mas principalmente pelo "negócio arranjado" que termina o diálogo.
                O "seu" que acompanha o nome do coletor indica tratar-se de uma pessoa de certa idade e/ou de uma pessoa de considerável posição social; já o "capitão" que acompanha Jerônimo indica que ele é pessoa de posses, como o próprio texto afirma, quando o denomina "abastado Jerônimo Ferreira". Por fim, há o despotismo paterno de forma mais explícita: "– Pois agora há de casar que o quero eu" (1893, p. 92). Verifica-se que prevalece a vontade do pai.
                Nota-se, por meio de diversos aspectos aqui levantados, que, embora o Acauã aponte fortemente para elementos do imaginário amazônico, ele também possui um relevante fundo social, que indica os procedimentos padrões para a sociedade patriarcal durante o século XIX.
                O que apresentei aqui foi apenas uma pequena parcela daquilo que ainda se pode retirar do conto em questão. Espero que cada leitor possa ir além dessas breves linhas por mim traçadas.

(Trechos retirados do comentário: Fantástico e realismo maravilhoso no Acauã, de Inglês de Souza. Lauro     Figueiredo Professor da Universidade Federal do Pará)

2 comentários:

  1. Simplesmente, maravilhoso !

    Sua análise literária professor. Inglês de Sousa, me deixou apaixonada por este conto. Sou leitota assidua de seu blogger, e tenho aprendido muito estudando os assuntos aqui postado;

    obrigada por sua contribuíção.

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  2. AMEI A ANÁLISE. DETALHISTA E PROFUNDA, COMPROVA O GRANDE CONHECIMENTO QUE LHE É NATO. ESTOU ESTUDANDO PARA O CONCURSO DO NPI E UM DOS TEMAS É O CONTO ACAUÃ. COMO LITERATURA NÃO É MEU FORTE, FUI OBRIGADA A PESQUISAR. DE TUDO O QUE JÁ LI SOBRE, SEM DÚVIDA, SEUS COMENTÁRIOS E A ANÁLISE FEITA SÃO OS MELHORES. ABRIRAM-E A MENTE. OBRIGADA MESMO. FOI UM PRAZER TE-LO REENCONTRADO. PARABÉNS PELO BELO TRABALHO. UM GRANDE BEIJO. PROF. ROBERTA MACEDO.

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