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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

UFRA - JOSE MATIAS - Eça de Queirós

"José Matias", conta uma história a partir de um narrador onisciente em que se evidencia as críticas ao romantismo exagerado, às relações humanas e a sociedade portuguesa, na qual ele conhecia muito bem, desde a classe baixa até a classe alta. A história se desenrola em torno do amor de José Matias por Elisa, onde ele abre mão de materializar seu amor para viver um amor idealizado

CONSIDERAÇÕES INICIAIS

A narrativa apresenta-se na primeira pessoa com o narrador (um amigo de José Matias) conversando com outra pessoa durante a ida ao enterro de José Matias:

“Linda tarde, meu amigo!... Estou esperando o enterro do José Matias – do José Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Gamilde...”

Assim, contando a história em flash-back, Eça reconstitui logo no início, a vida de José Matias, “um rapaz airoso” e “duma elegância sóbria e fina”, estudioso dos círculos literários lisboetas, culto e sofisticado, mas que, segundo o narrador em seu último encontro com ele, estava em estado lastimável e declara:

“...porque a derradeira vez que o encontrei, numa tarde agreste de Janeiro, metido num portal da Rua de S. Bento, tiritava dentro duma quinzena cor de mel, roída nos cotovelos, e cheirava abominavelmente a aguardente.”

Daí, nós leitores, temos pela clareza narrativa de Eça, os elementos necessários para aguçar a curiosidade, pois, afinal, o que levou José Matias, este rapaz dos bons convívios portugueses a arrastar-se por uma vida boêmia e errante?

O desenrolar do conto dá-se na apresentação e na descrição de Elisa (a bela musa dos últimos românticos), e o motivo, segundo o narrador, da derrocada na vida de José Matias. Casada com o conselheiro Matos Miranda e vizinha do Visconde de Gamilde, Elisa é a típica mulher da pequena burguesia portuguesa e que encarna a beleza romântica:

“... o pobre José Matias, ao regressar da praia de Ericeira em outubro, no outono, avistou Elisa Miranda, uma noite, no terraço, à luz da Lua! (...) Alta, esbelta, ondulosa, digna da comparação bíblica da palmeira ao vento. Cabelos negros, lustrosos e ricos, em bandós ondeados. Uma carnação de camélia muito fresca. Olhos negros, líqüidos, quebrados, tristes, de longas pestanas...”

Neste fragmento, podemos, também, visualizar a concisão de informações fornecidas pelo narrador, mantendo o ritmo da prosa e fornecendo o essencial para prender a atenção de seu interlocutor, essa era uma das maestrias queirosianas.

Daí em diante, temos o discorrer da vida de ambos, Elisa enviuva de Matos de Miranda e, após aguardar José Matias durante bom tempo, casa-se com Torres Nogueira. Torna-se viúva novamente e, ainda assim, José Matias a contempla como uma musa abstrata, como uma espécie de amor platônico, deixando-a em pânico.

Ainda vale ressaltar, no conto, o recurso narrativo utilizado por Eça. É interessante porque não permite a voz ao personagem que acompanha o narrador, logo, o jogo de diálogos é presumido e somente conhecemos as falas do personagem a partir do próprio narrador. Assim, de certo modo, o leitor assume uma das vozes narrativas do conto, já que acompanha as pausas reflexivas, as mudanças de assunto, dita o ritmo e o andamento. Dessa forma, o autor descreve a cena do enterro de José Matias:

“O Sujeito de óculos de ouro, dentro do coupé?... Não conheço, amigo. Talvez um parente rico, desses que aparecem nos enterros, com o parentesco correctamente coberto de fumo, quando o defunto já não importuna, nem compromete.”


COMENTÁRIOS CRÍTICOS

Neste conto cujo narrador se auto-denomina Filósofo, nós, leitores, estamos
identificados a seu interlocutor e, nas primeiras linhas, recebemos o convite: “Por que não acompanha o meu amigo este moço interessante ao Cemitério dos Prazeres? Moço interessante seria um eufemismo tático? um modo hábil de dizer rapaz singular sem dizê-lo? Sim, porque é das singularidades de um rapaz louro que o conto José Matias trata.. O
percurso que, guiados pelo narrador, fazemos pela vida de José Matias, dá-se no
tempo do trajeto até o Cemitério dos Prazeres onde o vamos enterrar. Não há, na criação desse ponto de partida, uma subliminar, maliciosa, bem-humorada e, ao mesmo tempo, tática lição?
“Linda tarde, meus amigos...” A que tarde se estará ele referindo ? À daquele dia ? ou à tarde do século onde, ao enterrar um modelo radical de espiritualista absoluto, se estava preconizando ou prefigurando, o enterro do idealismo?

Como amador neoplatônico perfeito, o corpo de José Matias não deseja alcançar nada; apenas seu espírito desejaria sua amada tão radicalmente espiritualista quanto ele. Através da contemplação de Elisa, José Matias amava o
Amor na idealidade que julgava perfeita. Realizá-lo fisicamente seria degradá-lo.
Comenta conosco o narrador: “Enredado caso, hein, meu amigo? Ah! muito filosofei
sobre ele, por dever de filósofo! E conclui que o Matias era um doente, atacado de hiper-espiritualismo [...] que receara apavoradamente as materialidades do casamento...

Certamente José Matias não possui as magníficas qualidades de liderança ,generosidade e sociabilidade . José Matias passa oculto, quase desapercebido,  Seu caso de amor se dá por sobre as rosas e as dálias abertas separadas por um muro coberto de hera. A casa de Elisa é também chamada Casa da Parreira, e a própria Elisa, Elisa da Parreira. Dela também o narrador diz que possui “uma carnação de camélia
muito fresca”.


Simbologias do Texto – As flores


A rosa, sabemos, tradicionalmente, significa a perfeição da beleza, tanto
material quanto espiritual. Elisa é pois a mulher perfeita. Ela o é para José Matias.
Contemplá-la é, para ele, ascender ao Amor e, consequentemente, à Perfeição.
Ademais, se a rosa surge frequentemente associada ao topos do carpe diem, a
beleza de Elisa, que despertava em tantos amor sensual, está ligada também ao
prazer e à embriaguez; daí Elisa da Parreira. Mas José Matias, esse, não tem olhos para o carpe diem. Fora do tempo, ele contempla-a eternamente

A camélia, flor que comparece duas vezes no conto, referida sempre a Elisa,
parece de fácil decodificação. Sendo flor tão sensível que tocá-la é manchá-la, tocar
a carnação de Elisa é ofender sua perfeição, maculá-la. Elisa é, para José Matias,
a que não deve ser tocada e, por isso, ele se consome com o seu segundo casamento
e com o surgimento do amante.

A hera, verde em todas as estações, simboliza o perene. O muro coberto de
hera que separa o canteiro de dálias da casa de José Matias do canteiro de rosas
da divina Elisa tem, portanto, dupla significação. Enquanto muro, separa-os fisicamente,
mas sendo coberto de hera, proclama a imortalidade daquele amor, porque
só espiritual. Paradoxalmente, o muro preserva o amor. Separando, une.

As violetas, roxas, são paixão, tanto no sentido ativo quanto no passivo do
termo. Espalhadas sobre a cova de José Matias, são uma apaixonada declaração
de amor de Elisa ao amante espiritual, mas não só. Através delas Elisa também
manifesta reconhecer a intensa paixão que José Matias lhe dedicava e a dolorosa
paixão que por amor sofreu. José Matias foi paixão.

Por último, raciocinemos sobre os soberbos canteiros de dálias da casa de
José Matias. Soberbas, deviam ser belas e altas, já que dálias atingem até dois
metros de altura. Dálias, contudo, não têm perfume, o que se aplica perfeitamente
bem à natureza do amor puramente espiritual com que José Matias ama Elisa.
José Matias não tem a fragrância do sensorial, opondo-se à sua Elisa que, simbolizada
por uma flor de intensa fragrância, nunca renunciou às necessidades grosseiras.
Dálias também são flores que podem ser expostas diretamente ao sol e
por muitas horas. Solares e resistentes, portanto. Como José Matias, rapaz airoso, louro como uma espiga. José Matias, solar, pertence à luz, como seu idealismo
já permitia inferir e resiste a tudo na contemplação da sua rosa.



ESTUDO DO TEXTO


Linda tarde, meu amigo!... Estou esperando o enterro do José Matias – do José Matias de Albuquerque, sobrinho do Visconde de Garmilde... O meu amigo certamente o conheceu – um rapaz airoso, louro como uma espiga, com um bigode crespo de paladino sobre uma boca indecisa de contemplativo, destro cavaleiro, duma elegância sóbria e fina. ... Esta imagem do José Matias data de 1865: porque a derradeira vez que o encontrei, numa tarde agreste de Janeiro, metido num portal da Rua de S. Bento, tiritava dentro duma quinzena cor de mel, roída nos cotovelos, e cheirava abominàvelmente a aguardente. “
“E o José Matias, encostado ao parapeito da Ponte, com a alma e os olhos perdidos na Lua! – Por que não acompanha o meu amigo este moço interessante ao Cemitério dos Prazeres? ... E o homem que nós vamos enterrar era um grande espiritualista!”
“E todavia, nesse José Matias, nenhuma secura ou dureza ou egoísmo ou desafabilidade! Pelo contrário! Um suave camarada, sempre cordial, e mansamente risonho. Toda a sua inabalável quietação parecia provir duma imensa superficialidade sentimental. ...
“ ...morava então em Arroios, numa casa antiga de azulejos, com um jardim, onde ele cultivava apaixonadamente canteiros soberbos de dálias. Esse jardim subia muito suavemente até ao muro coberto de hera que o separava de outro jardim, o largo e belo jardim de rosas do Conselheiro Matos Miranda, cuja casa, com um arejado terraço entre dois torrãozinhos amarelos, se erguia no cimo do outeiro e se chamava a casa da “Parreira”. ( leia comentários críticos do Prof. Gil sobre a simbologia das flores neste conto )O meu amigo conhece (pelo menos de tradição, como se conhece Helena de Tróia ou Inês de Castro) a formosa Elisa Miranda, a Elisa da Parreira...
Elisa – a exaltação e idealização

Alta, esbelta, ondulosa, digna da comparação bíblica da palmeira ao vento. Cabelos negros, lustrosos e ricos, em bandós ondeados. Uma carnação de camélia muito fresca. Olhos negros, líquidos, quebrados, tristes, de longas pestanas... 

A paixão declarada na visão do narrador

Já, porém, no tempo de Aristóteles, se afirmava que amor e fumo não se escondem; e do nosso cerrado José Matias o amor começou logo a escapar, como o fumo leve através das fendas invisíveis duma casa fechada que arde terrìvelmente.... Nunca admirei, meu amigo, face humana aureolada por felicidade mais segura e serena! Sorria iluminadamente quando me abraçou, com um sorriso que vinha das profundidades da alma iluminada; .... E a cada momento, irresistìvelmente, por um hábito já tão inconsciente como o pestanejar, os seus olhos risonhos, calmamente enternecidos, se voltavam para as vidraças fechadas... De sorte que, acompanhando aquele raio ditoso, logo descobri, no terraço da casa da Parreira, a divina Elisa, ...
E, meu caro amigo, acredite! Invejei aquele homem à janela, imóvel, hirto na sua adoração sublime, com os olhos, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, na branca mulher calçando as luvas claras, e tão indiferente ao Mundo como se o Mundo fosse apenas o ladrilho que ela pisava e cobria com os pés!
E este enlevo, meu amigo, durou dez anos, assim esplêndido, puro, distante e imaterial! Não ria... Decerto se encontravam na quinta de D. Mafalda: decerto se escreviam, e transbordantemente, atirando as cartas por cima do muro que separava os dois quintais: mas nunca, por cima das heras desse muro, procuraram a rara delícia duma conversa roubada ou a delícia ainda mais perfeita dum silêncio escondido na sombra. E nunca trocaram um beijo... Não duvide! Algum aperto de mão fugidio e sôfrego, sob os arvoredos de D. Mafalda, foi o limite exaltadamente extremo, que a vontade lhes marcou ao desejo. O meu amigo não compreende como se mantiveram assim dois frágeis corpos, durante dez anos, em tão terrível e mórbido renunciamento... Sim, decerto lhes faltou, para se perderem, uma hora de segurança ou uma portinha no muro
O amor espiritualiza o homem – e materializa a mulher. Essa espiritualização era fácil ao José Matias, que (sem nós desconfiarmos) nascera desvairadamente espiritualista; mas a humana Elisa encontrou também um gozo delicado nessa ideal adoração de monge, que nem ousa roçar, com os dedos trêmulos e embrulhados no rosário, a túnica da Virgem sublimada. Ele, sim! ele gozou nesse amor transcendentemente desmaterializado um encanto sobre-humano
Acreditará o meu amigo que ele abandonou o charuto, mesmo passeando solitàriamente a cavalo pelos arredores de Lisboa, logo que descobrira na quinta de D. Mafalda, uma tarde, que o fumo perturbava Elisa?
O amor arrasta ao luxo, sobretudo amor de tão elegante idealismo: e o José Matias prodigalizou com esplendor o luxo que ela partilhava. Decentemente não podia andar com a imagem de Elisa numa tipóia de praça, nem consentir que a augusta imagem roçasse pelas cadeiras de palhinha da plateia de S. Carlos. Montou, portanto, carruagens dum gosto sóbrio e puro: e assinou um camarote na Ópera, onde instalou, para ela, uma poltrona pontifical, de cetim branco, bordado a estrelas de ouro.
Elisa – Matos Miranda – José Matias

E, durante esse tempo, o Matos Miranda? Meu amigo, o bom Matos Miranda não desmanchava nem a perfeição, nem a quietação desta felicidade! Tão absoluto seria o espiritualismo do José Matias, que apenas se interessasse pela alma de Elisa, indiferente às submissões do seu corpo, invólucro inferior e mortal?... Não sei. não sugeria ideias inquietadoras de marido ardente, cujo ardor, fatalmente e involuntàriamente, se partilha e abrasa. Todavia nunca compreendi, eu, Filósofo, aquela consideração, quase carinhosa, do José Matias pelo homem que, mesmo desinteressadamente, podia por direito, por costume, contemplar Elisa desapertando as fitas da saia branca!... Haveria ali reconhecimento por o Miranda ter descoberto numa remota rua de Setúbal (onde José Matias nunca a descortinaria) aquela divina mulher, e por a manter em conforto, sòlidamente nutrida, finamente vestida, transportada em caleches de macias molas? Ou recebera o José Matias aquela costumada confidência – “não sou tua, nem dele” – que tanto consola do sacrifício, porque tanto lisonjeia o egoísmo?... 


A morte de Matos Miranda –
Matias e o respeito ao luto de Elisa

Mas um dia, a terra, para o José Matias, tremeu toda, num terramoto de incomparável espanto. Em Janeiro ou Fevereiro de 1871, o Miranda, já debilitado pela diabetes, morreu com uma pneumonia.  José Matias, nessa tarde, só sentia e só exprimia embaraço! Em frente, na casa da Parreira, todas as janelas permaneciam fechadas sob a tristeza da tarde cinzenta. E, todavia, surpreendi o José Matias atirando para o terraço, ràpidamente, um olhar em que transparecia inquietação, ansiedade, quase terror! Como direi? Aquele é o olhar que se resvala para a jaula mal segura onde se agita uma leoa! Num momento em que ele entrara na alcova, murmurei ao Nicolau, por cima do grogue: – “O Matias faz perfeitamente em ir para o Porto...” Nicolau encolheu os ombros: – “Sim, pensou que era mais delicado... Eu aprovei. Mas só durante os meses de luto pesado...”  Eu sorria contente: – “Um ano de luto, e depois muita felicidade e muitos filhos... É um poema acabado!” 

Para a surpresa do narrador e de José Matias

E nessa semana encontrei no meu Diário Ilustrado a notícia curta, quase tímida, do casamento da sr.ª D. Elisa Miranda... Com quem, meu amigo? – Com o conhecido proprietário, o sr. Francisco Torres Nogueira!...  O meu amigo cerrou aí o punho, e bateu na coxa, espantado. Eu também cerrei os punhos ambos, mas agora para os levantar ao Céu onde se julgam os feitos da Terra, e clamar furiosamente, aos urros, contra a falsidade, a inconstância ondeante e pérfida, toda a enganadora torpeza das mulheres, e daquela especial Elisa cheia de infâmia entre as mulheres! Atraiçoar à pressa, atabalhoadamente, apenas findara o luto negro, aquele nobre, puro, intelectual Matias! e o seu amor de dez anos, submisso e sublime!...
E depois de apontar os punhos para o Céu ainda os apertava na cabeça, gritando: – “Mas porquê? porquê?” – Por amor? Durante anos ela amara enlevadamente este moço, e dum amor que se não desiludira nem se fartara, porque permanecia suspenso, imaterial, insatisfeito. Por ambição? Torres Nogueira era um ocioso amável como José Matias, e possuía em vinhas hipotecadas os mesmos cinquenta ou sessenta contos que o José Matias herdara agora do tio Garmilde em terras excelentes e livres. Então porquê ?Ah! bem ensinara S. João Crisóstomo que a mulher é um monturo de impureza, erguido à porta do Inferno!

Mais surpresa para todos nós

“Já sabes? Foi o José Matias que recusou! Ela escreveu, esteve no Porto, chorou... Ele nem consentiu em a ver! Não quis casar, não quer casar!” Fiquei trespassado. – “E então ela...” – “Despeitada, fortemente cercada pelo Torres, cansada da viuvice, com aqueles belos trinta anos em botão, que diabo! Cotada, casou!” Eu ergui os braços até à abóbada do pátio: – “Mas então esse sublime amor do José Matias?” O Nicolau, seu íntimo e confidente, jurou com irrecusável segurança: – “É o mesmo sempre! Infinito, absoluto... Mas não quer casar!” – Ambos nos olhámos, e depois ambos nos separámos, encolhendo os ombros, com aquele assombro resignado que convém a espíritos prudentes perante o Incognoscível

As atitudes de José Matias

Havia, porém, uma tremenda e dolorosa mudança – a do José Matias! Adivinha o meu amigo como esse desgraçado consumia os seus estéreis dias? Com os olhos, e a memória, e a alma, e todo o ser cravados no terraço, nas janelas, nos jardins da Parreira!
O José Matias permanecia devotamente crente de que Elisa, na profundidade da sua alma, nesse sagrado fundo espiritual onde não entram as imposições das conveniências, nem as decisões da razão pura, nem os ímpetos do orgulho, nem as emoções da carne – o amava, a ele, ùnicamente a ele, e com um amor que não deperecera, não se alterara, floria em todo o seu viço, mesmo sem ser regado ou tratado, como a antiga Rosa Mística! O que o torturava, meu amigo, o que lhe cravara longas rugas em curtos meses, era que um homem, um macho, um bruto, se tivesse apoderado daquela mulher que era sua!
O sentimento deste extraordinário Matias era o de um monge, prostrado ante uma Imagem da Virgem, em transcendente enlevo – quando de repente um bestial sacrílego trepa ao altar, e ergue obscenamente a túnica da Imagem. O meu amigo sorri... E então o Matos Miranda? Ah! meu amigo! esse era diabético, e grave, e obeso, e já existia instalado na Parreira, com a sua obesidade e a sua diabetes, quando ele conhecera Elisa e lhe dera para sempre vida e coração. E o Torres Nogueira, esse, rompera brutalmente através do seu puríssimo amor, com os negros bigodes, e os carnudos braços, e o rijo arranque dum antigo pegador de touros, e empolgara aquela mulher – a quem revelara talvez o que é um homem!

Reflexões ...

Enredado caso, hem, meu amigo? Ah! muito filosofei sobre ele, por dever de filósofo! E concluí que o Matias era um doente, atacado de hiperespiritualismo, duma inflamação violenta e pútrida do espiritualismo, que receara apavoradamente as materialidades do casamento, as chinelas, a pele pouco fresca ao acordar, um ventre enorme durante seis meses, os meninos berrando no berço molhado... E agora rugia de furor e tormento, porque certo materialão, ao lado, se prontificara a aceitar Elisa em camisola de lã. Um imbecil?... Não, meu amigo! um ultra-romântico, loucamente alheio às realidades fortes da vida, que nunca suspeitou que chinelas e cueiros sujos de meninos são coisas de superior beleza em casa em que entre o sol e haja amor.

Elisa ...Elisa....

E sabe o meu amigo o que exacerbou, mais furiosamente, este tormento? É que a pobre Elisa mostrava por ele o antigo amor! Que lhe parece? Infernal, hem?... ... ela recomeçou, da borda do terraço, por sobre as rosas e as dálias abertas, aquela doce remessa de doces olhares com que durante dez anos extasiara o coração do José Matias.
De resto, Elisa era fundamentalmente honesta; e conservava o respeito sagrado do seu corpo, por o sentir tão belo e cuidadosamente feito por Deus – mais do que da sua alma. ...” que conservava dois amorosos ao seu doce serviço, um poeta para as delicadezas românticas e um cocheiro para as necessidades grosseiras.”

As dores amorosas de José Matias

Mas todo este alarido não lhe dissipou a dor – e foi então que, nesse Inverno, começou a jogar e a beber! Todo o dia se encerrava em casa (certamente por trás das vidraças, agora que Torres Nogueira regressara das vinhas... “... jogava frenèticamente até à tardia hora de cear, num gabinete de restaurante, com molhos de velas acesas, e o colares, e o champanhe, e o conhaque correndo em jorros desesperados.”

Elisa ...Elisa...

Na casa da Parreira duas janelas brilhavam, fortemente alumiadas, abertas à macia aragem. E essa claridade viva envolvia uma figura branca, nas longas pregas de um roupão branco, parada à beira do terraço, como esquecida numa contemplação. Era Elisa, meu amigo!. Ela, imóvel, repousava, mandando um doce olhar, talvez um sorriso, ao seu doce amigo. O miserável, fascinado, sem respirar, sorvia o encanto daquela visão benfazeja... Sùbitamente Elisa recolheu, à pressa, chamada por algum gemido ou impaciência do pobre Torres. E as janelas logo se fecharam, toda a luz e vida se sumiram na casa da Parreira.

Surpresas...

Pois, meu amigo, depois dessa curiosa noite, o Torres Nogueira morreu. A divina Elisa, durante o novo luto, recolheu à quinta duma cunhada também viúva, à “Corte Moreira”, ao pé de Beja. E o José Matias inteiramente se sumiu, se evaporou, sem que me revoassem novas dele, mesmo incertas
Depois, um dia, no começo do Verão, quem avisto eu à varanda duma casa nova e de esquina? A divina Elisa, metendo folhas de alface na gaiola de um canário! E bela, meu amigo! mais cheia e mais harmoniosa, toda madura, e suculenta, e desejável, apesar de ter festejado em Beja os seus quarenta e dois anos! 

Elisa .... Elisa....

A divina Elisa tinha agora um amante... E ùnicamente por não poder, com a sua costumada honestidade, possuir um legítimo e terceiro marido. O ditoso moço que ela adorava era com efeito casado... Casado em Beja com uma espanhola que, ao cabo dum ano desse casamento e de outros requebros, partira para Sevilha, passar devotamente a Semana Santa, e lá adormecera nos braços dum riquíssimo criador de gado. O marido, pacato apontador de Obras Públicas, continuara em Beja, onde também vagamente ensinara um vago desenho... Ora uma das suas discípulas era a filha da senhora da “Corte Moreira”: e aí na quinta, enquanto ele guiava o esfuminho da menina, Elisa o conheceu e o amou, com uma paixão tão urgente que o arrancou precipitamente às Obras Públicas, e o arrastou a Lisboa, cidade mais propícia do que Beja a uma felicidade escandalosa, e que se esconde

E agora José?

Pobre José Matias! Deixara crescer a barba, uma barba rara, indecisa, suja, mole como cotão amarelado: deixara crescer o cabelo, que lhe surdia em farripas secas de sob um velho chapéu-coco: mas todo ele, no resto, parecia diminuído, minguado, dentro duma quinzena de mescla enxovalhada e dumas calças pretas, de grandes bolsos, onde escondia as mãos com o gesto tradicional, tão infinitamente triste, da miséria ociosa.
Cada meia hora, subtilmente, enfiava para a taverna. Copo de vinho, copo de aguardente; – e, de mansinho, recolhia à negrura do portal, ao seu êxtase. Quando as janelas de Elisa se apagavam, ainda através da longa noite, mesmo das negras noites de Inverno – encolhido, transido, a bater as solas rotas do lajedo, ou sentado ao fundo, nos degraus da escada – ficava esmagando os olhos turvos na fachada negra daquela casa, onde a sabia dormindo com o outro!
Ao princípio, para fumar um cigarro apressado, trepava até ao patamar deserto, a esconder o lume que o denunciaria no seu esconderijo. Mas depois, meu amigo, fumava incessantemente, colado à ombreira, puxando o cigarro com ânsia, para que a ponta rebrilhasse, o alumiasse! E percebe porquê, meu amigo?... Porque Elisa já descobrira que, dentro daquele portal, a adorar submissamente as suas janelas, com a alma de outrora, estava o seu pobre José Matias!...

Elisa ...Elisa...

E acreditará o meu amigo que então, todas as noites, ou por trás da vidraça ou encostada à varanda (com o apontador dentro, estirado no sofá, já de chinelas, lendo o Jornal da Noite), ela se demorava a fitar o portal, muito quieta, sem outro gesto, naquele antigo e mudo olhar do terraço por sobre as rosas e as dálias? O José Matias percebera, deslumbrado. E agora avivava desesperadamente o lume, como um farol, para guiar na escuridão os amados olhos dela, e lhe mostrar que ali estava, transido, todo seu, e fiel!
Por que aquele moço de elegância sóbria e fina tombara na miséria ? Onde arranjava mesmo, cada dia, os três patacos para o vinho e para a posta de bacalhau nas tavernas? Não sei... Mas louvemos a divina Elisa, meu amigo! muito delicadamente, por caminhos arredados e astutos, ela, rica, procurara estabelecer uma pensão ao José Matias, mendigo. Situação picante, hem? a grata senhora dando duas mesadas aos seus dois homens – o amante do corpo e o amante da alma! Ele, porém, adivinhou de onde procedia a pavorosa esmola – e recusou, sem revolta, nem alarido de orgulho, até com enternecimento, até com uma lágrima nas pálpebras que a aguardente inflamara!

José. José..

E adivinha o meu amigo como ele gastava o dia? A espreitar, a seguir, a farejar o apontador de Obras Públicas! Sim, meu amigo! uma curiosidade insaciada, frenética, atroz, por aquele homem, que Elisa escolhera!... Os dois anteriores, o Miranda e o Nogueira, tinham entrado na alcova de Elisa, pùblicamente, pela porta da Igreja, e para outros fins humanos além do amor – para possuir um lar, talvez filhos, estabilidade e quietação na vida. Mas este era meramente o amante, que ela nomeara e mantinha só para ser amada: e nessa união não aparecia outro motivo racional senão que os dois corpos se unissem.
Requinte furioso de espiritualismo e devoção, meu amigo! A alma de Elisa era sua e recebia perenemente a adoração perene: e agora queria que o corpo de Elisa não fosse menos adorado, nem menos lealmente, por aquele homem a quem ela entregara o corpo!. ...

 A morte de José Matias

Enfim, meu amigo, anteontem, o João Seco apareceu em minha casa, de tarde, esbaforido: – “Lá levaram o José Matias, numa maca, para o hospital, com uma congestão nos pulmões!”
Parece que o encontraram, de madrugada, estirado no ladrilho, todo encolhido no jaquetão delgado, arquejando, com a face coberta de morte, voltada para as varandas de Elisa. Corri ao hospital. Morrera... Subi, com o médico de serviço, à enfermaria. Levantei o lençol que o cobria. Na abertura da camisa suja e rota, preso ao pescoço por um cordão, conservava um saquinho de seda, puído e sujo também. Decerto continha flor, ou cabelos, ou pedaço de renda de Elisa, do tempo do primeiro encanto e das tardes de Benfica... Perguntei ao médico, que o conhecia e o lastimava, se ele sofrera. – “Não! Teve um momento comatoso, depois arregalou os olhos, exclamou “Oh! “com grande espanto, e finou.”
Era o grito da alma, no assombro e horror de morrer também? Ou era a alma triunfando por se reconhecer enfim imortal e livre? O meu amigo não sabe; nem o soube o divino Platão; nem o saberá o derradeiro filósofo na derradeira tarde do mundo.
Chegámos ao cemitério. Creio que devemos pegar às borlas do caixão... Na verdade, é bem singular este Alves Capão, seguindo tão sentidamente o nosso pobre espiritualista... Mas, Santo Deus, olhe! Além, à espera, à porta da Igreja, aquele sujeito compenetrado, de casaca, com paletó alvadio... É o apontador de Obras Públicas! E traz um grosso ramo de violetas... Elisa mandou o seu amante carnal acompanhar à cova e cobrir de flores o seu amante espiritual! Mas, oh meu amigo, pensemos que, certamente, nunca ela pediria ao José Matias para espalhar violetas sobre o cadáver do apontador! É que sempre a Matéria, mesmo sem o compreender, sem dele tirar a sua felicidade, adorará o Espírito, e sempre a si própria, através dos gozos que de si recebe, se tratará com brutalidade e desdém! Grande consolo, meu amigo, este apontador com o seu ramo, para um Metafísico que, como eu, comentou Espinosa e Malebranche, reabilitou Fichte e provou suficientemente a ilusão da sensação! Só por isto valeu a pena trazer à sua cova este inexplicado José Matias, que era talvez muito mais que um homem – ou talvez ainda menos que um homem... – Com efeito, está frio... Mas que linda tarde!

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