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domingo, 3 de outubro de 2010

UFRA - CONTOS AMAZÔNICOS - QUADRILHA DE JACO PATACHO -


A história inicia numa noite escura e o céu ameaçava chover. O velho Salvaterra agradece a Deus pelas Graças alcançadas, pois estavam jantando pirarucu com cebolas cozidas.
À mesa estavam além de Salvaterra, a ”sora” Maria dos Prazeres, a filha Anica e os outros dois filhos. Reinava um ar de tranqüilidade e sossego, e todos esperando o sono chegar. Quando de repente, Anica ouviu um ruído estranho. Era uma canoa que subia o rio, mas como já estava tarde a “sora” opinou: - “Não pode ser gente de bem.” O marido achava que estavam seguindo para Irituia.
Foi quando Maria dos Prazeres lembrou das façanhas de Jacó Patacho; os assassinatos; os incêndios com as portas trancadas para que os moradores não escapassem da morte; onde só a pronuncia do nome, enchia de medo os moradores do Amazonas. Félix Salvaterra, além de rico era português, e isso não era bom em tempos de Cabanagem. O sítio era muito isolado.
Não escutaram mais o bater dos remos, os rapazes olham para as espingardas. O cão começa a latir. Salvaterra, se solta da sua mulher e abri a porta, e escuta-se uma voz:
“-Boa noite, meu branco.”
O português diz que era para o estranho aparecer. Surgem dois caboclos, no estilo habitante Tapajós.
Os viajantes iam para Irituia, à casa de Tenente Prestes levar uma carga de fazendas e molhados, e como já estava escuro pediam agasalho por uma noite.
Pouco depois, após sentirem mais seguros; e servindo aos caboclos o resto da ceia, Salvaterra anuncia que é hora de dormir, um dos Tapuias diz que iria dormir na canoa, por causa da mercadoria. Sai acompanhado do cão.
A Anica foi a única que não conseguiu “pegar no sono”, pois só lembrava das duas vacas que tinham sumido, e associava o desaparecimento as histórias terríveis de Jacó Patacho. (donzelas raptadas,famílias assassinadas, crianças atiradas no rio com uma pedra no pescoço...)
Anica lembra que já havia visto o caboclo o que estava dormindo na casa em algum lugar, que já foi insultada por aquele olhar. Onde?
Após muito forçar a memória, Anica lembra do caboclo, que o vira em Santarém, há dois ou três anos atrás, na casa de Joaquim Pinto, patrício e protetor de seu pai, em uma festa e era amigo agregado de Joaquim Pinto, e veio de Cametá e chamava-se Manoel saraiva.
E num relance de pensamento. Veio a lembrança que lhe deu um frio na espinha. “- Saraiva”. Este era o nome do Tenente de Jacó Patacho. Seria o mesmo homem?
Pensou logo em avisar o pai e os irmãos, mais tinha que passar por debaixo da rede, onde dormia o Tapuia, então pensou em saltar pela janela e rodear a casa, e lembrou do outro Tapuia (João) que poderia estar do lado de fora. Após pensar muito, tomou uma atitude heróica, e gritou com todo o vigor: - Aqui d’el- rei! Os de Jacó Patacho!
A voz de Anica repercutiu em toda a casa, porém sentiu-se presa e um beijo roubado e asqueroso, era Saraiva que entrara sorrateiramente em seu quarto.
Uma terrível criatura desdentada e negra. A rapariga com tanto nojo e indignação com aquele homem, encontrou forças e conseguiu apertar o pescoço do seu algoz.
O grito que dera, além de alertar seus familiares, chamara a atenção também dos quadrilheiros de Patacho, que ficaram indecisos para atacar e esconderam-se por detrás dos troncos de árvores.

Anica continua a gritar:
“-Acudam acudam, que me matam”!
Saraiva largou a moça e tentou abrir a janela, porém a jovem com muita coragem impede a passagem do vilão, e nesse momento entra no quarto o pai e seus irmãos, fortemente armados, onde o Tenente recebe uma pancada no crânio e cai banhado em sangue.
Os Salvaterras, embora armados soubessem que estavam em desvantagem.
A ausência do cão, sem dúvida morto a traição. Trancaram todas as portas, entretanto a porta da sala estava cerrada, pelo Tapuia João, onde o mesmo sentiu que seu chefe corria perigo, assobiou de um medo peculiar e gritou o chamado de guerra cabano.
“-Mata marinheiro! Mata! Mata!”
Os bandidos invadiram a casa dos portugueses e travou-se uma sangrenta batalha.
Saraiva recebeu um tiro a queima-roupa, logo depois o pai e os filhos caem banhados em sangue, mãe e filha abraçadas choram desesperadas. A quadrilha vingava a morte de seu Tenente.
O final do conto aparece o narrador comentando sua passagem pelo sítio de Félix Salvaterra (1932, o certo é 1832, com base o movimento da cabanagem) A habitação, agora, abandonada, ainda se poderia ver marcas da luta, os restos de cinco ou seis cadáveres, quase totalmente devorados pelos urubus.Maria dos Prazeres e sua filha, Anica, foram levadas pela quadrilha, depois do saque que ocorreu na casa.Soube-se deste fato através de Ana, lavadeira de Santarém, contava estremecida de horror todos esses casos.





Sobre o conto
A Quadrilha de Jacó Patacho que a família de seu Salvaterra temia antecipa o movimento dos cabanos, pois sabemos que esse movimento foi constituído por índios, negros, tapuias, que descontentes com os poderosos locais, quase todos portugueses, tentavam assim combatê-los.
Temos uma família portuguesa bem estruturada, mas que vive amedrontada por sentir-se sempre ameaçada pelas façanhas que então contavam de Jacó Patacho. como vemos no trecho abaixo:
“Saraiva! Mas era esse o nome do famigerado tenente de Jacó Patacho, cuja reputação de malvadez chegara aos recônditos sertões do Amazonas, cuja atroz e brutal lascívia excedia em horror aos cruéis tormentos que o chefe da quadrilha infligia às suas vítimas. Seria aquele tapuis de cara bexigosa e ar pacífico o mesmo salteador da baía do Sol e das águas do Amazonas o bárbaro violador de virgens indefesas, o bandido cujo nome mal se pronunciava nos serões das famílias pobres e honrados, tal o medo que incuta?

Linguagem: Encontramos uma linguagem coloquial e regional, típica do povo amazônico.
Principais personagens
·         Félix Salvaterra: português conhecido como velho salvaterra.
·         Maria do prazeres: esposa de Félix salvaterra. Tinha ainda com este dois filhos homens cujos nomes não aparecem na narrativa.
·         Anica: filha de Félix salvaterra e Maria dos Prazeres.
·         Jacó Patacho: Integrante de uma terrível quadrilha que espalhava pânico nos moradores da região.Não aparece diretamente na narrativa.
·         Seu João : Um dos caboclos integrantes da quadrilha de Jacó Patacho. 
·         Manuel saraiva: outro hospede de Felix salvaterra. Era o tenente da quadrilha.
·         Narrador anônimo: não participa ativamente de todos os fatos, aparecendo apenas no final da narrativa.
                             “Só muito tempo depois conheci os pormenores desta horrível tragédia, tão comum, aliás, naqueles tempos da desgraça.”
       
Foco Narrativo: estória narrada predominantemente em terceira pessoa por um narrador onisciente e onipresente que não revela seu nome.

“A sora Maria continuou a mostrar-se apreensiva. Muito se falava então nas façanhas de Jacob Patacho”

Temáticas
  • As taras sexuais.
“a rapariga voltou-se para o lado da porta da sala, mas sentiu-se presa por braços de ferro, ao passo que um asqueroso beijo, mordedura de réptil antes do que humana carícia, tapou-lhe a boca.”
  • O desrespeito à vida humana.
       “- Mata marinheiro! Mata! Mata!
Os bandidos correram e penetraram na casa. Travou-se então uma luta horrível entre aqueles tapuios armados de terçados e de grandes cacetes quinados de massaranduba, e os três portugueses que heroicamente defendiam o seu lar”
  • A animalização do comportamento humano.
  • A maldade dos seres humanos.
“O Saraiva recebeu um tiro à queima-roupa, o primeiro tiro, pois que o rapaz que o ameaçava, sentindo entrarem na sala os tapuios, procurara livrar-se logo do pior deles, ainda que por terra e ferido: mas não foi longo o combate; enquanto mãe e filha, agarradas uma à outra, se lamentavam desesperada e ruidosamente, o pai e os filhos caíam banhados em sangue, e nos seus brancos cadáveres a quadrilha de Jacob Patacho vingava a morte de seu feroz tenente, mutilando-os de um modo selvagem”

Tempo: Cronológico, pois o narrador faz referencia ao horário de sete da noite.
           “Eram sete horas, a noite estava escura, e o céu ameaçava chuva”.
Espaço: Era uma localidade ribeirinha às margens do rio tapajós, no Amazonas.
            “Só se ouviam o murmúrio brando do Tapajós e o ciciar do vento nas folhas das pacoveiras. De repente, a Anica inclinou a linda cabeça, e pôs-se a escutar um ruído surdo que se aproximava lentamente.”
CONSIDERAÇÕES SOBRE A QUADRILHA DE JACÓ PATACHO

            Antes de entrar na análise desse conto, cabe-me primeiramente desenvolver um sucinto comentário a respeito da Cabanagem, para que não se caia no "equívoco" de se entendê-la como um mero ato de "Selvageria, atrocidade", como ficou explícito na nota 77 da segunda edição de Contos Amazônicos, preparada pela professora Sylvia Perlingeiro Paixão (1988, p. 130).
            A Cabanagem foi um dos episódios mais importantes e sangrentos ocorridos no Brasil durante o século XIX. A data tida como marco do movimento é 7 de janeiro de 1835, quando Belém foi tomada por uma multidão comandada por Francisco Pedro Vinagre. O fim do levante é marcado pela rendição do último grupo cabano, encabeçado por Gonçalo Jorge de Magalhães,em 25 de março de 1840. Essas são as datas "oficiais", porém há controvérsias quanto à datação da Cabanagem, o que não me cabe discutir no presente momento.
            É justamente a Cabanagem o foco central d'A Quadrilha de Jacó Patacho. nele encontra-se as impressões que se tinha da Cabanagem, bem como a descrição do ataque do grupo de cabanos à família do português Félix Salvaterra. Somente duas mulheres, a professora Maria dos Prazeres e Anica, escaparam da morte, e, ao que tudo indica, Anica é a testemunha que contou a história ao narrador, pois

            Anica tocara em partilha a Jacó Patacho, e ainda o ano passado, a velha Ana, lavadeira de Santarém, contava, estremecendo de horror, os tormentos que sofrera em sua atribulada existência (1893, p. 171).

            Daí a máxima de Walter Benjamin, segundo a qual "A experiência que passa de pessoa em pessoa é a fonte a que recorrem todos os narradores" (1987, p. 198).
            No conto, é referido o ano de 1832:

            Quando passei com meu tio Antônio em julho de 1832 pelo sítio de Félix Salvaterra, o lúgubre aspecto da habitação abandonada, sob cuja cumieira um bando de urubus secava as asas ao sol, chamou-me a atenção (1893, p. 170) (grifo meu).

            No entanto, é consenso entre a maioria dos estudiosos apontar 1835 como o ano em que se inicia a Cabanagem. Tal disparidade merece uma avaliação mais acurada. Quanto a essa questão das datas, devo salientar que O Rebelde, igualmente pertencente ao livro Contos Amazônicos e com o enredo girando em torno da Cabanagem, também tem seus principais episódios ocorridos no ano de 1832.
            Mauro Barreto enquadra tal datação na "fase denominada pré-cabana (c. 1822-1833), uma época de conflitos e sedições políticas que assolaram a Amazônia no período que se sucedeu de imediato à independência" (2003, p. 69). É ainda Barreto que tece um comentário curioso acerca da denominação "cabanos", atribuída aos revoltosos encontrados na obra de Sousa. Segundo o estudioso, em nota ao vocábulo em questão, o termo não seria referente aos revolucionários de 1835-1840, "mas aos membros dos diversos grupos sediciosos ou das facções políticas contestatórias que atuaram no norte e nordeste do país durante o período regencial" (2003, p. 70).
            São fortes as impressões que a Cabanagem deixou no imaginário dos habitantes da Região Amazônica, as quais se encontram registradas de modo pormenorizado n'A Quadrilha de Jacó Patacho, bem como no já referido O Rebelde. Eis o exemplo de um relato da Quadrilha:

            Eram donzelas raptadas para sacias as paixões dos tapuios; pais de família assassinados barbaramente; crianças atiradas ao rio com uma pedra ao pescoço; herdades incendiadas, um quadro interminável de atrocidades inauditas (1893, p. 158).

            Segundo Vicente Salles, esse conto é uma "invocação ao célebre 'cangaceiro das águas' dos tempos da Cabanagem" (1990, p. 17), embora o destaque maior seja dado à pessoa de Manoel Saraiva:

            era este o nome do famigerado tenente de Jacó Patacho, cuja reputação de malvadez chegara aos recônditos sertões do Amazonas, e cuja atroz e brutal lascívia excedia em horror aos cruéis tormentos que o chefe da quadrilha infligia às suas vítimas (1893, p. 161).
            As atrocidades cometidas pelos cabanos são postas em destaque nos textos inglesianos, porém a História Oficial aponta fato cruéis de parte a parte, seja do lado dos "rebeldes", seja do das forças "legalistas". Da parte destas, é bem marcante o episódio do Brigue Palhaço, que, de acordo com Jorge Hurley, citado por Carlos Rocque (1968, p. 347), inspirou o início do conflito. Em tal episódio, 252 prisioneiros, de um total de 256, morreram no porão do navio, por conta se asfixia, fato comentado nos seguintes termos por Domingos Antônio Raiol [1830-1913], o Barão do Guajará, no primeiro volume dos Motins Políticos:
            A bárbara guarnição do navio, que presenciava tudo isto [o desespero dos prisioneiros devido à falta de ar e água] e que com um sorriso infernal comprazia-se de ver aquela horrorosa cena de desesperação e furor, dirigiu alguns tiros de fuzil para o porão e derramou dentro uma grande porção de cal, cerrando-se logo a escotilha e ficando o porão hermeticamente fechado, a preceito de que por este meio atroz se aplacaria o motim, e os presos ficariam sossegados. Por espaço de duas horas ainda se ouviu um rumor surdo e agonizante, que se foi extinguindo aos poucos, e às três horas de encerramento completo, que foi ao escurecer, reinou no porão o silêncio dos túmulos! (1970, p. 51).

            Porém, na obra de Inglês de Sousa, são as ações dos cabanos que inspiram terror, pois casos estupendos se contavam de um horror indizível: incêndios de casas depois de pregadas as portas e janelas para que não escapassem à morte os moradores (1893, p. 152-153).

            A ameaça à família do conto tem motivação específica, pois "Félix Salvaterra tinha fama de rico e era português, duas qualidades perigosas em tempo de cabanagem" (1893, p. 153). Logo, a partir da citação, depreende-se que o conflito possui motivações econômicas e políticas, pois a aversão ao português é devida à sua situação cômoda decorrente da Independência sem que perdesse as regalias que tinha durante o período colonial.
            Além do teor histórico, o conto tem como pano de fundo o lúgubre erotismo patente na relação entre Anica e Saraiva. N'A Quadrilha de Jacó Patacho, mais ainda que no Acauã, há a insistência da agressividade sexual proveniente do olhar, de um "olhar de lascívia torpe que [Saraiva] dirigia à Anica" (1893, p. 155).
            Tal olhar incomoda a moça, a ponto de provocar-lhe sonhos em que os fatos narrados acerca da ação dos cabanos se entrelaçam à imagem do tapuio que dormia na sala da família:
            E por uma singularidade, que a rapariga não sabia explicar, em todos aqueles dramas de sangue e fogo havia uma figura saliente, o chefe, o matador, o incendiário, demônio vivo que tripudiava sobre os cadáveres quentes das vítimas, no meio das chamas dos incêndios, e, produto de um cérebro enfermo, agitado pela vigília, as feições desse monstro eram as do pacífico tapuio que ela ouvia roncar placidamente  no fundo da rede na sala vizinha (1893, p. 158-159).
            Após essa observação, a jovem faz uma verdadeira escavação em sua memória, a fim de lembrar de onde conhecia ”aquele olhar indigno, desaforado, torpe, que a incomodaram tanto na sala, queimando-lhe os seios" (1893, p. 160).
            Localizada a primeira vez em que aquele olhar a havia espreitado – em Santarém, na casa do comerciante Joaquim Pinto –, Anica liga os pontos: o tapuio é "o famigerado tenente de Jacó Patacho" (1893, p. 161). Ante sua angústia em avisar os familiares, Anica é abordada de fato pelo homem, num episódio que deixa clara "a sensualidade feroz de Saraiva", acentuada ainda mais por conta do "asqueroso beijo, mordedura de réptil" *1893, p. 165) que ele desfere contra a boca da moça.
            Baldada a abordagem de Saraiva sobre Anica, o que rouba a cena é o grito de guerra da Cabanagem: "– Mata marinheiro! Mata! Mata!" (1893, p. 169), seguido do massacre à família do português.
(Trechos retirados do comentário: Fantástico e realismo maravilhoso no Acauã, de Inglês de Souza. Lauro     Figueiredo Professor da Universidade Federal do Pará)

3 comentários:

  1. Acho muito interessante vc fazer comentários sobre as leituras obrigatórias do vestibular,pois assim como eu,outros vestibulandos estão à procura de análizes dessas obras.desde já agradeço por esta iniciativa e acho o seu blog excelente.Mande mais comentários,por favor!

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  2. muito boa a ideia de seu blog
    me ajudou muito em um trabalho de escola
    consegui compreender o assunto
    XD

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