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segunda-feira, 11 de outubro de 2010

UFRA - EMBARGO - Saramago -


O estilo de  Saramago

1. È considerado um dos melhores pensadores da Literatura Universal na atualidade, sua obra lhe conferiu vários títulos e prêmios, dentre eles o Nobel de Literatura de 1998.

2. A prosa de Saramago apresenta os seguintes aspectos da literatura pós-moderna:

# Relação entre o homem e a máquina: marcada pela dependência extrema do homem;
# O absurdo, o Non Sense, o extraordinário: alguns fatos que ocorrem em suas narrativas fogem da ordem racional, mas assumem um caráter crítico;
# A relação entre a globalização e o cotidiano: a banalidade dos fatos que estão no dia-a-dia são enfocados;
# A ênfase na vida urbana;
# O cotidiano burocrático (escritório, repartições públicas);
# Conflito entre o mundo individual e social;
# Texto altamente metafórico, sem pontuação adequada;
# Ênfase em degenerações morais, sobretudo na família (relacionamentos são marcados pela rotina);


3. O livro de contos Objeto Quase trata a relação entre o homem e os elementos que foram criados por ele. Nessa relação os objetos se humanizam e passam a competir com o homem, criatura mecanizada;

O título faz referência a possibilidade do objeto ter vida, e desafiar o seu criador, sempre incapaz de compreender sua própria realidade;

O conto Embargo  atesta a influência surrealista, já que a humanização dos objetos e das máquinas dá ao enredo caráter ilógico, misterioso e sobrenatural;

 

 

Objecto quase, de José Saramago


Análise do livro

Objecto quase
, publicado pela primeira vez em 1978, é uma coletânea de seis histórias breves e tensas do escritor português José Saramago e evidenciam as raízes do maravilhoso messe autor. Em um gênero não muito praticado por ele, os climas são variados - podem ir do humor sarcástico ao lirismo romântico -, os personagens também, mas algo os une intimamente: o pessimismo, onde o autor espelhou não somente o presente, mas o futuro também. Vemos nesta obra o homem "coisificado" e as coisas, "humanizadas"... É simplesmente o reflexo de nossa sociedade, que se preocupa mais com a segurança dos pertences do que com o próprio cidadão!

Neste conjunto de contos, em Objecto Quase, há quase uma sequência, onde a história do homem é montada em painéis, que vão desde a sua alienação, com opressões internas e externas, até à sua própria natureza, espontânea, amoral, livre: o encontro do jovem e da jovem, no final, em que o silêncio renasce, identificado com a natureza, sobre as cinzas da palavra, que de todos os vírus se tornou portadora.

Traduzem um capitalismo em agonia, atmosfera de fim de linha, de sociedades em que os bens de consumo circulam às expensas da própria vida. Daí a escrita que se move em ciclos, emulando ritmos alternados de crise e prosperidade, parodiando a circulação também incessante, distanciada e sem sentido das mercadorias. E, apartada do mundo, a consciência elabora sua vingança. Talvez a maior de todas seja a linguagem, que se destina a ferir e referir as coisas a distância. Daí o permanente poder de crítica desses escritos, capazes de fundir, com extrema habilidade e conhecimento de causa, o poético, o político.

Em algum lugar no passado - ou seria no presente? - uma cadeira cai e em um breve momento o destino de um homem se desfaz; um outro se vê condenado a permanecer colado na poltrona do seu carro; um terceiro pretende reconstruir uma cidade, livrando-a de seus mortos… Esses e outros episódios fantásticos e alegóricos, cômicos e trágicos se encontram em uma narrativa carregada de metáforas que tenta desesperadamente denunciar uma certa condição (des)humana à qual se submetem o corpo e o cérebro quando esses não estão em harmonia.

Nos contos de Objecto Quase há dois grupos de protagonistas. No primeiro, eles são o avesso do herói, quase objetos que têm a morte indigna por destino: é o empregado que se torna vítima do próprio automóvel em “Embargo”; em “Coisas” é o sujeito que covardemente se submete às normas do mundo; em “Refluxo” é o rei que como Minos, antípoda de Teseu, foge à aventura heróica; em “Centauro” é o ser dividido entre dois mundos e, por isso, sem possibilidade de transpor mundos. No segundo grupo há a luta entre herói e vilão: em “A cadeira” – metonímia do ditador - Salazar é derrotado por um metafórico cupim, que provoca o tombo e a ruína do regime, trazendo um benefício para a sociedade; em “Desforrra”, o protagonista adolescente descobre a força de Eros, ao recusar a repressão sexual representada pela castração de um porco. Nestes casos, há uma luta e a vitória da vida.

Personagens que não se entrelaçam em suas histórias particulares, mas partilham de um mesmo destino: o da vingança, alimentada às escondidas, longe dos olhos da sociedade e das condutas consideradas lícitas. Este pode ser o fio condutor dos seis contos do livro do escritor português. A vingança funciona como motor da trama, ainda que muitas vezes o motor se emperre no meio do caminho.

E aí entra o tônus satírico e crítico de Saramago, antigo detrator do Capitalismo, envolvido em política e membro do Partido Comunista Português. A incompletude dos contos é descrita no título do volume. Tais características ganham força de texto para texto. A começar pela história que inicia o livro, "Cadeira", a descrição de um móvel como se este pertencesse a um universo conspiratório. E assim por diante nos outros contos: "Embargo", "Refluxo", "Coisas", "Centauro" e "Desforra". É uma boa maneira de entrar no universo angustiante do escritor.

Com Objeto Quase, José Saramago denuncia o estado de animalização do homem e a materialização da violência como um capítulo comum, doloroso da história de um povo.

O autor de Objecto Quase, com a "libertinagem" da sua escrita cria potencialidades estéticas que podem passar desapercebidas. As divagações aparentemente fortuitas estão para o episódio como um coro para um solo: reforçam-no. O episódio adquire uma ressonância que o amplia, por ela se abrindo o espaço para a crítica, onde o humor e a sátira engordam, pela insinuação, pela ironia, pela afirmação, parecendo perder-se a pertinência em favor da loquacidade. A voz coloca-se numa direção para ser ouvida numa direção oposta.
A versatilidade de Saramago (verbal, imaginativa, observadora, refletiva) leva-o às raias do surrealismo, patente na roupagem dos "fatos", no conto "Coisas", onde os ingredientes da psicologia patológica, individual e coletiva, e da parapsicologia, são expropriados pelas palavras, cujo objetivo, constante no autor, é o homem, para a despir até à pele e deixá-lo nu na praça pública da história, em confronto com a história, que o mesmo é dizer consigo próprio, o que explica a sua toada sarcástica e a sua intenção pedagógica acerada.
A despersonalização do homem , com a sua perda de identidade , a sua degradação enfim , a sua coisificação ( ou quase coisificação ) ; como já sugere o título do livro Objecto Quase , onde o leitor encontra o conto que iremos estudar.
Não se trata da leitura imperiosa de se dizer que o homem é uma coisa , mas que ele está se tornando e que  se o homem não alterar o seu modo de viver , ele se transformará em objeto , pois j á se encaminha para tal.
Porém , não devemos nos prender apenas a leitura da coisificação do homem , pois em Saramago o texto traz uma leitura interpretativa muito rica.
O resultado disso tudo é que nos tornamos escravos dos objetos, perdemos nossa liberdade, e já não sabemos como sair deste círculo vicioso que nós mesmos criamos. Dito de outro modo: se os objetos nos comandam, já não somos mais sujeitos.

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E nesta discussão do homem estar perdendo valores , assista este video da cantora PITTY  e reflita sobre este eixo temático


Em Embargo, fala-se do presente do homem. O motorista que luta com o carro para assumir o controle dos trajetos, mas consegue apenas vitórias parciais, já que o carro não permite que ele saia de seu interior, parece simbolizar o homem comum desumanizando-se sem compreender o devido alcance da situação.
No final da estória , quando o carro, sem gasolina, para, e o motorista pende para o lado esquerdo, após abrir a porta, escorregando para fora, o narrador nos diz que isso ocorre ou "...porque fosse morrer, ou porque o motor morrera,..." sugerindo dois finais pessimistas para a luta do homem contra sua coisificação: se morre, ele deixa o problema sem solução; se apenas para, junto com o motor, pela falta de gasolina, ele já está incorporado ao objeto, já é parte integrante dele. De certo modo, é como se o homem também parasse por não ter mais gasolina


                        



                               Analise do Texto ( fragmentos do texto )

EMBARGO   ( Saramago )

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tema abordado neste fragmento :

O HOMEM MODERNO – O COTIDIANO – A FAMÍLIA


Acordou com a sensação aguda de um sonho degolado e viu diante de si a chapa cinzenta e gelada da vidraça, o olho esquadrado da madrugada que entrava, lívido, cortado em cruz e escorrente de transpiração condensada. Pensou que a mulher esquecera de correr o cortinado ao deitar-se, e aborreceu-se: se não conseguisse a voltar a dormir já, acabaria por ter o dia estragado. Faltou-lhe porém o ânimo para levantar-se, para tapar a janela: preferiu cobrir a cara com um lençol e virar-se para a mulher que dormia, refugiar-se no calor dela e no cheiro de seus cabelos libertos. Esteve ainda uns minutos à espera, inquieto, a temer a espertina matinal. Mas depois acudiu-lhe a idéia do casulo morno q era a cama e a presença labiríntica do corpo a que se encostava, e, quase a deslizar num círculo lento de imagens sensuais, tornou a cair no sono. O olho cinzento da vidraça foi-se azulando aos poucos, fitando fixo as duas cabeças pousadas na cama, como restos aquecidos de uma mudança para outra casa ou para outro mundo. Quando o despertador tocou, passadas duas horas, o quarto estava claro
(...) Fumou o primeiro cigarro enquanto se barbeava e o segundo com o café, que entretanto aquecera. Tossiu como todas as manhãs. Depois vestiu-se às apalpadelas, sem acender a luz do quarto. Não queria acordar a mulher.

Comentário do Prof. Gil >>> Perceba que Saramago te insere no cotidiano de um homem moderno já revelando o padrão angustiante , estressante da vida moderna , tendo este homem o “ sonho degolado “e tentando voltar a dormir e ao mesmo tempo temendo pelo amanhecer  ( “aborreceu-se: se não conseguisse a voltar a dormir já, acabaria por ter o dia estragado “ , “Esteve ainda uns minutos à espera, inquieto, a temer a espertina matinal “ )
Registros do vício , que na modernidade acompanha o homem como uma fuga diante do stress diário    (“Fumou o primeiro cigarro enquanto se barbeava e o segundo com o café, que entretanto aquecera”)

II
No último lanço da escada já poderia ver a rua e saber se acertara. Afinal havia uma luz ainda cinzenta, mas dura e rebrilhante, de quartzo. Na berma do passeio, um grande rato morto. E enquanto, parado à porta, acendia o terceiro cigarro, passou um garoto embaçado, de gordo, que cuspiu em cima do animal, como lhe tinham ensinado e sempre via fazer.

Comentário do Prof. Gil >>>>>Preste atenção para esta passagem em que um garoto cospe num rato morto na calçada . Pois mesmo com toda as informações e tecnologias os homens não conseguem se livrar de certos costumes e superstições, de certas influências do meio. Seria essa evolução apenas aparente. Esta é uma das leituras que podemos Ter deste trecho.
Mas é importante entender que o rato traz a idéia da sarjeta , da escória e assim podemos buscar leituras interpretativas decorrentes deste ponto e relaciona-la com o próprio homem.
 
III
O automóvel estava cinco prédios abaixo. Grande sorte ter podido arruma-lo ali. Ganhara a superstição de que o perigo de lhe roubarem seria tanto maior quanto mais longe o tivesse deixado à noite. Sem nunca o ter dito em voz alta, estava convencido de que não voltaria a ver o carro se o deixasse em qualquer extremo da cidade. Ali, tão perto, tinha confiança. O automóvel apareceu-lhe coberto de gotículas, os vidros tapados de humidade. Se não fosse o frio tanto, poderia dizer-se que transpirava como um corpo vivo. Olhou os pneus segundo o deu hábito, verificou de passagem que a antena não fora partida e abriu a porta. O interior do carro estava gelado. Com os vidros embaciados, era uma caverna translúcida afundada sob um dilúvio de água. Pensou que teria sido melhor deixar o carro em sítio onde pudesse faze-lo descair para pegar mais facilmente. Ligou a ignição, e no mesmo instante o motor roncou alto, com um arfar profundo e impaciente. Sorriu, satisfeito da surpresa. O dia começava bem.

Comentário do Prof. Gil >>>> No texto EMBARGO veremos , então, alguns aspectos sobre a humanização dos objetos. Durante o conto muitas prosopopéias são marcantes: transpiração condensada da vidraça, olho cinzento da vidraça, o automóvel...transpirava como um corpo vivo, o motor roncou alto, com um arfar profundo e impaciente, o carro vibrante e tenso nas suas mãos, o diabo do carro tinha sete fôlegos, o carro resistiu, alguma coisa não estaria bem no automóvel, percebemos que as personificações se projetam no automóvel, que é uma importante personagem, é ele o objeto com o qual o homem vai contracenar. Há uma gradação na relação do homem com a máquina, já no final do conto eles parecem ser a mesma coisa, parecem sentir as mesmas coisas...
            Preste bastante atenção na gradação que vai ocorrer na relação  HOMEM E MÁQUINA
Neste trecho acima é estabelecida a relação de afeto e trabalho do  homem com o automóvel
Um outro aspecto já que Saramago discute valores modernos do cotidiano é a questão ligada à segurança. Perceba neste fragmento  ( “Grande sorte ter podido arruma-lo ali. Ganhara a superstição de que o perigo de lhe roubarem seria tanto maior quanto mais longe o tivesse deixado à noite. Sem nunca o ter dito em voz alta, estava convencido de que não voltaria a ver o carro se o deixasse em qualquer extremo da cidade. Ali, tão perto, tinha confiança”)

 
A GRADAÇÃO
Rua acima, o automóvel arrancou, raspando o asfalto como um animal de cascos, triturando o lixo espalhado. O conta-quilómetros deu um salto repentino para 90, velocidade de suicídio na rua estreita e ladeada de carros parados. Que seria isto? Retirou o pé de acelerador, inquieto. Por pouco diria que lhe teriam trocado o motor por outro muito mais potente. Pisou à cautela o acelerador dominou o carro. Nada de importância. Às vezes não se controla bem o balanço do pé. Basta que o tacão do sapato não assente no lugar habitual para que se altere o movimento e a pressão. É simples
(...)
O ponteiro indicava precisamente meio depósito. Parou num sinal vermelho, sentindo o carro vibrante e tenso nas suas mãos. Curioso. Nunca dera por essa espécie de frémito animal que percorria em ondas a chapas da carroçaria e lhe fazia estremecer o ventre. Ao sinal verde, o automóvel pareceu serpentear, alongar-se como um fluido, para ultrapassar os que lhe estavam à frente. Curioso..
(...)
Meio depósito. Se encontrasse um posto de abastecimento a funcionar, aproveitaria. Pelo seguro, com todas as voltas que tinha que dar antes de ir para o escritório, melhor de mais que de menos. Este estúpido embargo. O pânico, as horas de espera, filas de dezenas e dezenas de carros. Meio depósito. Outros andam a essa hora com muito menos, mas se for possível atestar. O carro fez uma curva balançada, e, no mesmo movimento, conhecida, talvez tivesse sorte. Como um perdigueiro que acode ao cheiro, o carro insinuou-se por entre o trânsito, voltou duas esquinas e ocupar espaço na fila que esperava. Boa lembrança.
(...)
. Ligou o rádio e apanhou um noticiário. Notícias cada vez piores. Estes árabes. Este estúpido embargo.
(...) De repente, o carro deu uma guinada e descaiu para a rua à direita, até parar numa fila de automóveis mais pequena do que a primeira. O que fora aquilo? Tinha o depósito cheio, sim, praticamente cheio, porque diabo de lembrança. Manejou a alavanca das velocidades para meter a marcha atrás, mas caixa não lhe obedeceu. Tentou forçar, mas as engrenagens pareciam bloqueadas
(...)Olhou o relógio. Valeria ir ao cliente? Por sorte apanharia o estabelecimento ainda aberto. Se o trânsito ajudasse, sim, se o trânsito ajudasse, teria tempo. Mas o trânsito não ajudou. Tempo do Natal, mesmo faltando a gasolina, toda a gente vem para a rua, a empatar quem precisa de trabalhar. E ao ver uma transversal descongestionada, desistiu de ir ao cliente. Melhor seria explicar qualquer coisa no escritório o e deixar para tarde. Com tantas hesitações desviara-se muito do centro.
(...)Mas o carro, a vinte metros, obliquou para esquerda, por si mesmo, e foi parar, suavemente, como se suspirasse, no fim da fila. Que coisa fora aquela, se não decidira meter mais gasolina? Que coisa era, se tinha o depósito cheio?. Preocupado com ideia de ficar ali imobilizado, quando tinha o depósito cheio, manejou rapidamente a alavanca para a marcha atrás. O carro resistiu e alavanca fugiu-lhe das mãos. No segundo imediato achou-se apertado entre seus dois vizinhos. Diabo. Que teria o carro? Precisava de leva-lo à oficina. Uma marcha atrás que funcionava ora sim ora não, é um perigo.(...).
Foi dando voltas, alongando e cortando caminho, até que chegou em frente ao escritório. Pôde arrumar o carro suspirou de alívio. Desligou o motor, tirou a chave e abriu a porta. Não foi capaz de sair.(...)O encosto do banco segurou-o docemente e manteve-o preso.

Comentário do Prof. Gil >>>Mas esse dia se faz diferente. Depois de parar num posto de gasolina ele percebe que seu carro começa a ter vontade própria e para em todo o posto que ofereça gasolina. Sabe-se que há um embargo de petróleo causado pelos árabes, esse embargo vai afetar o mundo inteiro, um resultado da globalização. Os postos de gasolina estão sempre com filas de automóveis em busca de combustível, que em muitos postos já não tem. O carro que toma vida embarga a vida rotineira do homem, atrasa-o do trabalho. A perplexidade de ver o carro com vida faz o homem perceber que agora ele está preso dentro dele, grudado ao banco, impossibilitado de vontades, sozinho, sem ajuda.
O interessante também é que depois de abastecido o carro ainda busca de novo o posto de gasolina , numa leitura metafórica da própria sociedade de consumo que muitas vezes ( ou quase sempre ) leva o homem a consumir mesmo sem necessidade.
É válido perceber que num mundo globalizado ainda exista lugar para fila. E a fila aqui pode ser vista como um atraso social, uma marca de uma população demodé, que está atrás na fila do desenvolvimento. Há também a relação entre o homem e o tempo. Mostra um homem sempre atrasado, cheio de coisas a fazer, sempre preocupado em resolver problemas, dando valores para ele: time is money.
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IV
Que era isto que estava a acontecer? Puxou para baixo retrovisor e olhou-se. Nenhuma diferença no rosto. Apenas uma aflição imprecisa que mal se dominava. Ao voltar a cara para a direita, para o passeio, viu uma rapariguinha a espreitá-lo, ao mesmo tempo intrigada e divertida. Logo a seguir surgiu uma mulher com um casaco de abafo nas mãos, que a rapariga vestiu, sem deixar de olhar. E as duas afastaram-se, enquanto a mulher compunha a gola e os cabelos da menina. Voltou a olhar no espelho e compreendeu o que devia fazer. Mas não ali. Havia pessoas a olhar, gente que o conhecia (...)

Comentário do Prof. Gil Mattos >>> Outro aspecto é o aparecimento da humanidade como voyeur, observadora do mundo, as pessoas cada vez mais curiosas, as intimidades cada vez mais invadidas. E mais ironicamente é que elas percebem a angústia do homem preso ao carro e nada fazem
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 (...)Quando enfim chegou à rua onde morava, teve de imaginar como iria chamar a mulher. Parou o carro em frente da porta, desorientado, quase à beira doutra crise nervosa. Esperou que acontecesse o milagre de a mulher descer por obra e merecimento do seu silencioso chamado de socorro. Esperou muitos minutos, até que um garoto curioso da vizinhança se aproximou e ele pôde pedir-lhe, com o argumento de uma moeda, que subisse ao terceiro andar e dissesse à senhora que lá morava que o marido estava em baixo à espera, no carro. Que viesse depressa, que era muito urgente. O rapaz foi e desceu, disse que a senhora já vinha e afastou-se a correr, com o dia ganho

Comentário do Prof. Gil Mattos >>> Contrapondo à situação anterior , o autor mostra que a ajuda das pessoas se faz mediante o melhor referencial desta sociedade : o dinheiro  e não a solidariedade

V

E viu o marido, naquele casulo quente e embaciado que o isolava do mundo, torcer-se todo no assento para sair do carro e não conseguir. Atreveu-se a agarra-lo por um braço e puxou, incrédula, e não pode também move-lo dali. E como aqui era horrível demais para ser acreditado, ficaram calados a olhar-se, até que ela pensou que o marido estava doido e fingia não poder sair. Tinha de ir chamar alguém para o tratar, para o levar aonde as loucuras se tratam. Cautelosamente, com muitas palavras, disse ao marido que esperasse um bocadinho, que ela não tardaria, ia procurar ajuda para ele sair, e assim até poderiam almoçar juntos e ele telefonaria para o escritório a dizer que estava constipado. E não iria trabalhar da parte da tarde. Quer sossegasse, o caso não tinha importância, a aver que não demora nada.

Comentário do Prof. Gil >>> Impressionante é a situação que envolve a mulher e o marido, pois percebemos uma leitura fria diante da difícil e angustiante situação vivida


VI
Até o anoitecer o homem circulou pela cidade, passando por bombas esgotadas, entrando em filas de espera sem o ter decidido, ansioso por o dinheiro se lhe acabava e ele não saberia o que poderia acontecer quando não houvesse mais dinheiro e o automóvel parasse ao pé duma bomba para receber mais gasolina. E isso só não aconteceu porque todas as bombas começaram a fechar e as filas de espera que ainda se viam apenas aguardando o dia seguinte, e então o melhor era fugir de encontrar bombas ainda abertas para não ter que parar
(...)
Por duas vezes falou baixinho quando o assento o segurou, por duas vezes tentou convencer o automóvel a deixa-lo sair a bem, por duas vezes num descampado nocturno e gelado, onde a chuva não parava, explodiu em gritos, em uivos, em lágrimas, em desespero cego. As feridas da cabeça e da mão voltaram a sangrar. E ele, soluçando, sufocado, gemendo como um animal aterrorizado, continuou a conduzir o carro. A deixar-se conduzir.
(...)A estrada transformava-se num simples caminho, que adiante, a cada momento, parecia que se perdia entre pedras. Onde estava o mundo? Diante dos olhos eram serras e um céu espantosamente baixo. Ele deu um grito e bateu com os punhos cerrados no volante. Foi nesse momento que viu que ponteiro do indicador da gasolina estava em cima do zero. O motor pareceu arrancar-se a si mesmo e arrastou o carro por mais vinte metros. Era outra vez estrada para lá daquele lugar, mas a gasolina acabara.A testa cobriu-se-lhe de suor frio. Uma náusea agarrou nele e sacudiu-o dos pés a cabeça, um véu cobriu-lhe por três vezes os olhos. Às apalpadelas, abriu a porta para se libertar da sufocação que aí vinha, e nesse movimento, por que fosse morrer ou porque o motor morrera, o corpo pendeu para o lado esquerdo e escorregou do carro

Comentário do Prof. Gil >>>A situação que o nosso personagem se encontra dentro do automóvel vai se tornando cada vez mais angustiante, até chegar num ponto de desespero. Não há como pedir ajuda, o homem é realmente só, não há como sair de dentro do carro, não há como se livrar de algo que já faz parte de si, ou de algo do que ele passou a ser parte. O desespero, a agonia, a aflição são os sentimentos bem retratados por esse homem embargado, num mundo cheio de burocracias e embargos. O homem só pensa em ficar distante da humanidade, e vai para longe, até onde ninguém possa vê-lo. Preso e humilhado diante da situação ele luta até não conseguir mais
Quando sai do carro , pergunto a vocês alunos do Gil...
Onde ele está?
Está fora da cidade , bem longe...
Terá que voltar ao centro urbano. E como fará isso? Ou melhor melhor , precisará do que para voltar à cidade?
O homem realmente se libertou ?

3 comentários:

  1. Acredito que embargo e uma visao de o quanto as pessoas se a pegam ao objeto e que percebemos essa frequencia no cotidiano.

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  2. Suponho que o EMBARGO, é à depedência humana a cerca das criações tecnológicas tais como: telefonia, internet, máquinas, automóveis, mídias, etc., tornando-se escravos do mundo globalizado.

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  3. Devo dizer que gostei muito de seu blog,me ajudou bastante..adorei seus comentários,são bem embasados.

    Li todos os resumos das leituras da ufpa..tenho que admitir que esse do Saramago foi bem confuso para mim..o modo como ele escreve é meio que exótico..talvez porque eu não seja português..ushauhs..mas logo após os trechos do texto tem os comentários,na qual torna a compreensão do texto bem mais fácil.

    obrigado!

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